quarta-feira, 10 de setembro de 2008

OS CADERNOS DE MALTE LAURIDS BRIGGE

de RAINER MARIA RILKE
(...)
Por amor de um verso têm que se ver muitas cidades, homens e coisas, têm que se conhecer os animais, tem que se sentir como as aves voam e que se saber o gesto com que as flores se abrem pela manhã. É preciso poder tornar a pensar em caminhos em regiões desconhecidas, em encontros inesperados e despedidas que se viram vir de longe, - em dias de infância ainda não esclarecidos, nos pais que tivemos que magoar quando nos traziam uma alegria e nós a não comprendemos (era uma alegria para outro-), em doenças de infância que começam de maneira tão estranha com tantas transformações profundas e graves, em dias passados em quartos calmos e recolhidos e em manhãs à beira-mar, no próprio mar, em mares, em noites de viagem que passaram sussurrando alto e voaram com todos os astros, - e ainda não é bastante poder pensar em tudo isto. É preciso ter recordações de muitas noites de amor, das quais nenhuma foi igual a outra, (...) E também não é ainda bastante ter recordações. é preciso saber esquecê-las quando são muitas, e é preciso ter a grande paciência de esperar que elas regressem. Pois que as recordações mesmas ainda não são o que é preciso. Só quando elas se fazem sangue em nós, olhar e gesto, quando já não têm nome e já se não distinguem de nós mesmos, só então é que pode acontecer que, numa hora rara, do meio delas se erga a primeira palavra de um verso e saia delas.
(...)

4 comentários:

Pedro M. Tavares disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Pedro M. Tavares disse...

Dorothea Tanning - "A little night music" (1946):

http://www.ibiblio.org/wm/paint/auth/tanning/tanning.nachtmusik.jpg

sleeping beauty disse...

Pedro
Muito obrigada pela informação.
Realmente a pintora Dorothea Tanning que viveu com Max Ernest, tem um universo fantástico. É como digo sempre - Um criativo precisa de viver com outro criativo. Quando esses encontros acontecem, são eternos. Há trocas de comunicação fabulosas e não tem de haver necessáriamente contaminação dos universos artísticos.
Um beijinho
Graça

[A] disse...

Gostei tanto deste texto que voltei para relê-lo.

"Só quando elas se fazem sangue em nós, olhar e gesto, quando já não têm nome e já se não distinguem de nós mesmos, só então é que pode acontecer que, numa hora rara, do meio delas se erga a primeira palavra de um verso e saia delas."

Só assim, pois,se pode falar de autenticidade e honestidade criativa...