sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Poema de HERBERTO HELDER

Adolescentes repentinos, não sabem, apenas o tormento de um excesso
giratório. Com as cabeças zoológicas.
Os aneis nas patas.
Oprime-os para dentro um clarão dançante.
Aquilo que são fora.
A cegueira dos cifres que levantam
como uma enorme estrela
desabraçada. A sua ligeireza busca o peso
da pedra. E o peso que têm
de pura luz sem peso, o movimento sinistro
no chão,
o terror, uma
riqueza violenta - buscam alguém que os toque.
Na boca

Que os torne transparentes, circulatórios.
E quando as turquesas se cruzam de mão a mão, deixando-as
em brasa,
vê-se que são anjos tocados pelas víboras, anjos
anatómicos e atrozes.
Expostos à lua como animais. Que são escuros
nas espáduas.
Devastam o mundo só de olhá-los com força.
O sono que os ataca mostra-os
cheios de artérias. E então a delicadeza pesa-lhes
como a morte. Basta tocá-los na cara para que fiquem
brancos. Atravessá-los com o sangue venoso
da insónia, da nossa matéria.

E então a sua carne é uma estrela suada.

FLASH, edição de autor, tiragem de 250 exemplares, fora do mercado, 1980

2 comentários:

Pedro M. Tavares disse...

A poesia surrealista é muito cativante porque ficam sempre perguntas por resolver, mas sobretudo não há quem nos tente empurrar para lugares-comuns. Hérberto Helder a par com Cesariny e o Mestre Almada Negreiros contribuem muito para imaginário de todos os interessados.

sleeping beauty disse...

A poesia é essencial para se compreender o mundo.
Como escreve Joaquim Manuel Magalhães no seu livro de ensaio UM POUCO DA MORTE:
(...)
"O surrealismo, no campo da escrita, constitui-se como um discurso da dispersão, como representação caótica e estilhaçada da instintualidade verbalizável, como registo até onde possível automático do vulcão pessoal e colectivo do ser. Aquilo que herberto Helder consegue realizar é o oposto dessa erupção, dessa fragmentação discursiva:é uma espécie quase improvável de mapa de um vulcão, de conduta das mais enraivecidas explosões.(...)
Quase exactamente da mesma geração de Herberto Helder são Philip Glass ou Steve Reich. Tal como nesta primeira zona da poesia deste português, as obras desses americanos vivem da calculada repetição, conduzida por formas provocadas do caos interior e conducentes à provocação de encantos acumulativos no universo imaginante de quem as recebe. Essas repetições ligam-se a fórmulas próximas da alucinação e do aparente aleatório."(...)

(