segunda-feira, 28 de junho de 2010

JOÃO DOS SANTOS - EU AGORA QUERO IR-ME EMBORA - Conversas com JOÃO SOUSA MONTEIRO

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J.S.M. -A criança aceita brincar com o adulto porque o adulto aceita brincar com a criança...
J.S.-Exactamente. O adulto mostra-se capaz de brincar com a criança. É isso.
J.S.M.-Em seu entender, todas as crianças têm maneiras neuróticas de organizar a sua
ansiedade?
J.S.- Ah sim, seguramente. Se não fosse isso elas tinham morrido de uma doença somática precoce ou psico-somática, porque não tinham elaborado o seu pensamento e portanto descarregavam o seu inconsciente sobre o corpo. De facto, a organização da nossa vida mental é, em grande parte, a organização da nossa ansiedade e da nossa depressão. Ou das nossas primeiras ansiedades e das nossas primeiras depressões. Quer dizer, das frustrações e das gratificações e do jogo de umas e de outras, e das acções e interacções entre pais e filhos, entre crianças e adultos. E cada um organiza isso à sua maneira, à sua maneira mais ou menos fugidia ou mais ou menos frontal, mais ou menos lúdica, agressiva, etc. Portanto, cada pessoa tem uma neurose à sua escolha. Não é exactamente como no supermercado (risos)...não há supermercados para isso, não creio que venha a haver...Mas há um ambiente que proporciona, que dá um suporte grande às crianças. Por exemplo, os contos tradicionais, na minha opinião...Aliás é também a opinião do Betelheim que é uma sumidade nesse asunto...E eu digo que é a minha opinião porque, eu vi isso antes de ler o Betelheim, antes de saber a opinião dele. De facto, os contos tradicionais desde «O Capuchinho Vermelho» ao «Pequeno Polegar», enfim, todos esses contos conhecidos - e alguns deles se não são internacionais, pelo menos têm correspondências noutros países - ajudam muito a criança a encontrar uma solução para a sua ansiedade ou para os seus sonhos, o que é a mesma coisa. Os próprios sonhos também são, de certa maneira, contos mais ou menos tradicionais que nós nos contámos a nós próprios nas horas dos nossos problemas.
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Editora Assírio & Alvim, 2ªedição, Abril de 1991

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