segunda-feira, 29 de julho de 2013
terça-feira, 2 de julho de 2013
O Silêncio dos Poetas - Alberto Pimenta
(...)
A palavra como barreira
Isto explica muitas coisas: explica antes do mais o motivo porque um dos temas mais insistentes da poesia moderna é o da limitação proveniente do facto de ter que exprimir-se e da concessão implícita nesse acto. Fernando Pessoa formulou-o de modo bem claro:
Se às vezes digo que as flores sorriem
E se eu disser que os rios cantam,
Não é porque eu julgue que há sorrisos nas flôres
E cantos no correr dos rios...
É porque assim faço mais sentir aos homens falsos
A existência verdadeiramente real das flôres e dos rios.
Porque escrevo para eles me lerem sacrifico-me às vezes
À sua estupidez de sentidos...
Não concordo comigo mas absolvo-me,
Porque sou só essa coisa séria, um intérprete da Natureza,
Porque há homens que não percebem a sua linguagem,
Por ela não ser linguagem nenhuma.
Não será este igualmente o significado do poema Kubla Khan de S.T. Coleridge, aparentemente tão enigmático no seu conjunto de circunstâncias biográficas e instrumentais? O poema existia acabado e real no espírito do autor, mas perdeu-se no momento em que estava a ser escrito: perdeu-se por conseguinte no momento em que deveria estabelecer-se o compromisso com a expressão, o compromisso da experiência com a memória (linguística) dessa experiência. Sartre, sempre generoso com os poetas, diz também:
«O poeta está fora da língua, vê as palavras ao contrário, como se não pertencesse à condição humana e, chegando junto dos homens, começasse por encontrar a palavra como uma barreira».
Esteticidade e comunicação
Quem com efeito busca conhecimento concreto, quem não se contenta com ver a «realidade» apenas reflectida no espelho dos símbolos (no espelho do eu?), forçosamente considera que o espelho é um obstáculo e dificilmente um caminho. Sendo assim, o grau de esteticidade de uma obra literária está também na proporção inversa do seu compromisso com os símbolos apriorísticos, isto é, na proporção inversa da sua aceitação da «realidade» presente (reflectida) nos ditos símbolos.
Resulta daqui que quanto maior é a esteticidade, tanto menor é o grau de comunicação «objectiva» desta arte e, por conseguinte, tanto menor é a sua aceitação por parte do público, o qual não costuma dispor-se facilmente a abandonar a harmonia simbólica pré-estabelecida do seu conhecimento. Sucede então o que Bourdieu define assim:
«É por isso que os observadores menos cultos das nossas sociedades têm tanto a tendência de exigir uma 'representação realista'; como não dispõem das categorias específicas de apreensão, aplicam às obras de arte conhecidas a mesma chave que lhes serve para atribuir um sentido aos objectos da vida cotidiana».
Ensaios, A Regra do Jogo, 1978, Lisboa.
A palavra como barreira
Isto explica muitas coisas: explica antes do mais o motivo porque um dos temas mais insistentes da poesia moderna é o da limitação proveniente do facto de ter que exprimir-se e da concessão implícita nesse acto. Fernando Pessoa formulou-o de modo bem claro:
Se às vezes digo que as flores sorriem
E se eu disser que os rios cantam,
Não é porque eu julgue que há sorrisos nas flôres
E cantos no correr dos rios...
É porque assim faço mais sentir aos homens falsos
A existência verdadeiramente real das flôres e dos rios.
Porque escrevo para eles me lerem sacrifico-me às vezes
À sua estupidez de sentidos...
Não concordo comigo mas absolvo-me,
Porque sou só essa coisa séria, um intérprete da Natureza,
Porque há homens que não percebem a sua linguagem,
Por ela não ser linguagem nenhuma.
Não será este igualmente o significado do poema Kubla Khan de S.T. Coleridge, aparentemente tão enigmático no seu conjunto de circunstâncias biográficas e instrumentais? O poema existia acabado e real no espírito do autor, mas perdeu-se no momento em que estava a ser escrito: perdeu-se por conseguinte no momento em que deveria estabelecer-se o compromisso com a expressão, o compromisso da experiência com a memória (linguística) dessa experiência. Sartre, sempre generoso com os poetas, diz também:
«O poeta está fora da língua, vê as palavras ao contrário, como se não pertencesse à condição humana e, chegando junto dos homens, começasse por encontrar a palavra como uma barreira».
Esteticidade e comunicação
Quem com efeito busca conhecimento concreto, quem não se contenta com ver a «realidade» apenas reflectida no espelho dos símbolos (no espelho do eu?), forçosamente considera que o espelho é um obstáculo e dificilmente um caminho. Sendo assim, o grau de esteticidade de uma obra literária está também na proporção inversa do seu compromisso com os símbolos apriorísticos, isto é, na proporção inversa da sua aceitação da «realidade» presente (reflectida) nos ditos símbolos.
Resulta daqui que quanto maior é a esteticidade, tanto menor é o grau de comunicação «objectiva» desta arte e, por conseguinte, tanto menor é a sua aceitação por parte do público, o qual não costuma dispor-se facilmente a abandonar a harmonia simbólica pré-estabelecida do seu conhecimento. Sucede então o que Bourdieu define assim:
«É por isso que os observadores menos cultos das nossas sociedades têm tanto a tendência de exigir uma 'representação realista'; como não dispõem das categorias específicas de apreensão, aplicam às obras de arte conhecidas a mesma chave que lhes serve para atribuir um sentido aos objectos da vida cotidiana».
Ensaios, A Regra do Jogo, 1978, Lisboa.
sexta-feira, 7 de junho de 2013
CLARICE LISPECTOR
"Só posso alcançar a despersonalidade da mudez se eu antes tiver construído toda uma voz."
"Ah, mas para chegar à mudez, que grande esforço da voz.
Minha voz é o modo como vou buscar a realidade; a realidade, antes de minha linguagem, existe como um pensamento que não se pensa, mas por fatalidade fui e sou impelida a precisar saber o que o pensamento pensa."
"Ah, mas para chegar à mudez, que grande esforço da voz.
Minha voz é o modo como vou buscar a realidade; a realidade, antes de minha linguagem, existe como um pensamento que não se pensa, mas por fatalidade fui e sou impelida a precisar saber o que o pensamento pensa."
terça-feira, 30 de abril de 2013
Languidez
Languidez - Estado subtil do desejo de amor, experimentado na ausência deste, fora de todo o querer-para-si.
Sátiro diz: Quero que o meu desejo seja imediatamente satisfeito. Se vejo um rosto que dorme, uma boca entreaberta, uma mão que pende, desejo poder lançar-me sobre tudo isto. Este Sátiro - figura do Imediato - é o próprio oposto do lânguido. Na languidez, não faço senão aguardar: «Não acabava de te desejar.» (O desejo está em toda a parte; mas, no estado apaixonado, transforma-se nesta coisa muito especial: a languidez.)
Rolland Barthes, Fragmentos de um discurso amoroso, Edições 70.
Sátiro diz: Quero que o meu desejo seja imediatamente satisfeito. Se vejo um rosto que dorme, uma boca entreaberta, uma mão que pende, desejo poder lançar-me sobre tudo isto. Este Sátiro - figura do Imediato - é o próprio oposto do lânguido. Na languidez, não faço senão aguardar: «Não acabava de te desejar.» (O desejo está em toda a parte; mas, no estado apaixonado, transforma-se nesta coisa muito especial: a languidez.)
Rolland Barthes, Fragmentos de um discurso amoroso, Edições 70.
Fragmentos de um discurso amoroso - Rolland Barthes
Saber que não se escreve para o outro, saber que isto que vou escrever não me fará nunca ser amado por quem amo, saber que a escrita nada compensa, nada sublima, que está precisamente aí onde tu não estás - é o começo da escrita.
sexta-feira, 12 de abril de 2013
quinta-feira, 21 de março de 2013
Poema de Isabel de Sá
DENTRO DAS IMAGENS
Os poemas têm veneno na boca.
Na estrada da minha vida
plantei a árvore
sem saber quem era.
Em que parte do planeta
há mais ódio? A matéria
erosiva transforma o corpo
e não há regresso. Não
restará um monte de estrume.
Em todo o lado
parece que o mundo em desordem
pouco a pouco enlouqueceu
e os homens atam a corda
à espera que aconteça.
São infelizes
mas não o suficiente.
Não sabem dizer
por que se esquecem de amar.
Brilho no Escuro nº3 Dezembro de 2009
sexta-feira, 15 de março de 2013
UMA IMAGEM DIVINA
A crueldade tem um coração de homem
e o ciúme uma face humana
o terror a humana forma divina
e o sigilo a roupa do homem.
A roupa do homem é em ferro forjada,
a forma do homem é a forja acesa,
a face do homem um forno selado,
o coração a fornalha a arder.
Gastão Cruz
Orgão de Luzes, Poesia Reunida, Biblioteca de Autores Portugueses, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1990
A crueldade tem um coração de homem
e o ciúme uma face humana
o terror a humana forma divina
e o sigilo a roupa do homem.
A roupa do homem é em ferro forjada,
a forma do homem é a forja acesa,
a face do homem um forno selado,
o coração a fornalha a arder.
Gastão Cruz
Orgão de Luzes, Poesia Reunida, Biblioteca de Autores Portugueses, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1990
quarta-feira, 6 de março de 2013
Os Diários de Franz Kafka
Franz Kafka nasceu em 1883 em Praga, onde o pai era negociante. Doutor em Direito, entra para uma companhia de seguros em 1907, mas a sua natureza complexa vai adaptar-se dificilmente à vida profissional. Em 1910 começa a escrever os Diários que irá manter com regularidade até 1923. Morre de tuberculose num sanatório em 1924.
12 de Janeiro - Não escrevi muito sobre mim nestes dias, em parte por preguiça (durmo tanto e tão profundamente durante o dia, tenho mais peso enquanto durmo), em parte também por medo de trair o conhecimento que tenho de mim. Este medo justifica-se, porque uma pessoa só devia permitir fixar na escrita a sua autopercepção quando o puder fazer com a maior integridade, com todas as consequências secundárias e também com toda a verdade. Porque se isto não acontecer - e eu de qualquer maneira não sou capaz de o fazer - o que está escrito irá, de acordo com a sua própria finalidade e com o poder superior do que foi fixado, tomar o lugar daquilo que se sentia apenas vagamente, de tal modo que o sentimento verdadeiro desaparecerá enquanto o não valor do que foi anotado será reconhecido tarde de mais.
23 de Setembro - Esta história O Processo, escrevi-a eu de um jacto durante a noite de 22 para 23, das dez da noite às seis da manhã. Quase não conseguia tirar as pernas de debaixo da secretária, tão rígidas elas estavam de estar tanto tempo sentado. A terrível tensão e alegria, a maneira como a história se desenvolveu perante mim, como se eu estivesse a andar sobre as águas. Várias vezes durante a noite senti o meu peso às costas. Como tudo pode ser dito, como há para tudo, para as mais estranhas fantasias, um grande fogo à espera em que elas perecem e renascem outra vez.
Como ficou azul do lado de fora da janela. Rolou por ali uma carruagem. Dois homens atravessaram a ponte. Às duas horas olhei para o relógio pela última vez. Quando a criada atravessou a antecâmara pela primeira vez eu escrevi a última frase. Fechar a luz e a luz do dia. As dores leves em redor do coração. O cansaço que desapareceu a meio da noite. A trémula entrada no quarto das minhas irmãs. A leitura em voz alta. Antes disso, espreguiçar em frente da criada e dizer: «Estive a escrever até agora.» O aspecto da cama intacta, como se tivesse acabado de ser posta ali. A convicção confirmada de que com o escrever este romance me encontro nas planuras vergonhosas da escrita. Só desta maneira é que se pode escrever, só com uma coerência destas, com esta abertura total do corpo e da alma.
FRANZ KAFKA/DIÁRIOS, DIFEL, Difusão Editorial Lda, Lisboa.
eternidade
Se o vires, diz-lhe que o tempo dele não passou;
que me sento na cama, distraída, a dobar demoras
e, sem querer, talvez embarace as linhas entre nós.
Mas que, mesmo perdendo o fio da meada por
causa dos outros laços que não desfaço, sei que o
amor dá sempre o novelo melhor da sua mão. Se
o encontrares, diz-lhe que o tempo dele não passou;
que só me atraso outra vez, e ele sabe que me atraso
sempre, mas não demais; e que os invernos que ele
não gosta de contar, mas assim mesmo conta que nos
separam, escondem a minha nuca na gola do casaco,
mas só para guardar os beijos que me deu. Se o vires,
diz-lhe que o tempo dele não passa, fica sempre.
Maria do Rosário Pedreira
a minha palavra favorita, Edição Jorge Reis-Sá, Centro Atlântico Lda, Lisboa, 2007.
Se o vires, diz-lhe que o tempo dele não passou;
que me sento na cama, distraída, a dobar demoras
e, sem querer, talvez embarace as linhas entre nós.
Mas que, mesmo perdendo o fio da meada por
causa dos outros laços que não desfaço, sei que o
amor dá sempre o novelo melhor da sua mão. Se
o encontrares, diz-lhe que o tempo dele não passou;
que só me atraso outra vez, e ele sabe que me atraso
sempre, mas não demais; e que os invernos que ele
não gosta de contar, mas assim mesmo conta que nos
separam, escondem a minha nuca na gola do casaco,
mas só para guardar os beijos que me deu. Se o vires,
diz-lhe que o tempo dele não passa, fica sempre.
Maria do Rosário Pedreira
a minha palavra favorita, Edição Jorge Reis-Sá, Centro Atlântico Lda, Lisboa, 2007.
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