Poema de PAULO DA COSTA DOMINGOSVivo no bulício da cidade como num enclave e conjuro ao diálogo mortos notáveis, para o que, nem havendo entendimento ou apreço, escrevo. Moderado na escavação das ruínas... que quem muito viveu, gozou e depois partiu não está agora para versos e grandes conversas. Uma dobra que ficou mais vincada na folha, sombreando triângulos no papel, a dois tons, solta frases, interrompidas, e ao desdobrá-la desdobramo-las - o sério na galhofa, a mofa mitigando a dor. Que riam de nós à vontade! Se já ninguém chega à nascente que não seja pela torneira, ou à terra lavrada que não dê com insecticida, e ao grão que não venha em lata, e do leite nem se fala: só vaporizado - então entrego-me à passagem desses anjos ( os últimos), sobrevoo vigilante o covil do amor.
NAS ALTURAS, Frenesi, Lisboa 2006