quinta-feira, 22 de outubro de 2009
terça-feira, 20 de outubro de 2009
POEMA DE ANA LUISA AMARAL
CONSTELAÇÕES
Usamos todos a ilusão
de fabricar a vida:
história, constelações
de sons e gestos
Usamos todos a suprema glória
do amor: por generosidade
ou fantasia, ou nada, que de nada se fazem
universos
Usamos todos mil chapéus de bicos
mal recortados e de encontro
ao sol:
o nosso mais perfeito em franja e bico
e um arremedo tal e seicentista
que ofuscando-se: o sol
de pó de vento, ou de rio
sem pé: único dom de fabricar o tempo
em raiz de palmeira
ou de cipreste
domingo, 18 de outubro de 2009
POEMAS DO LIVRO ESTÁDIO - MANUEL DE FREITAS
para o Alexandre Sarrazola
Lembro-me, de repente, que já
estive em cada uma destas mesas,
com mortos e vivos que prefiro
não nomear - enquanto se apequena
(ou avoluma?) a nenhuma diferença:
mãos que nos tocaram, que apodrecem,
que brindaram e morreram.
Demasiado connosco, até nisso.
Estas mesas azuis,
tão dolorosamente concretas,
o roxo sem perdão da jukebox.
Parece, de repente, que nunca
falei de outra coisa (e aquilo
de que falei, afinal, não existe).
Vejo as sombras, os rostos
que se despedem, um a um,
da mentira de estarmos vivos.
Peço outra cerveja, inventamos
juntos uma razão para ficar.
Mas eu só gostava, no fundo, que
o inferno também fechasse às duas.
Estádio, (Janeiro-Dezembro de 2007) de Manuel de Freitas, com capa e um desenho de Luís Henriques, é uma edição dos autores composta e paginada por Pedro Serpa. Edição limitada, números assinados. Fevereiro de 2008.
Lembro-me, de repente, que já
estive em cada uma destas mesas,
com mortos e vivos que prefiro
não nomear - enquanto se apequena
(ou avoluma?) a nenhuma diferença:
mãos que nos tocaram, que apodrecem,
que brindaram e morreram.
Demasiado connosco, até nisso.
Estas mesas azuis,
tão dolorosamente concretas,
o roxo sem perdão da jukebox.
Parece, de repente, que nunca
falei de outra coisa (e aquilo
de que falei, afinal, não existe).
Vejo as sombras, os rostos
que se despedem, um a um,
da mentira de estarmos vivos.
Peço outra cerveja, inventamos
juntos uma razão para ficar.
Mas eu só gostava, no fundo, que
o inferno também fechasse às duas.
Estádio, (Janeiro-Dezembro de 2007) de Manuel de Freitas, com capa e um desenho de Luís Henriques, é uma edição dos autores composta e paginada por Pedro Serpa. Edição limitada, números assinados. Fevereiro de 2008.
sábado, 17 de outubro de 2009
domingo, 11 de outubro de 2009
WERTHER de GOETHE
(...)Depois de o debater, os sábios concluem que os animais se não suicidam; quando muito, alguns - cavalos, cães - sentem vontade de se mutilar. É, porém, a propósito de cavalos que Werther salienta a nobreza que assinala todo o suicídio:« Fala-se de uma nobre raça de cavalos que, quando terrivelmente excitados, esgotados, têm o instinto de abrir eles próprios uma veia, com uma dentada, para respirar livremente. Assim se passa comigo muitas vezes: desejaria abrir uma veia para garantir a liberdade eterna.»
Fragmentos de um Discurso Amoroso de Roland Barthes
WE HAVE DECIDED NOT TO DIE
We Have Decided Not to Die-Daniel Askill-2003-11'
by TiKris
postagem de Ana Abrunhosa em Julho de 2009
ARY DOS SANTOS
Meu amor meu amor
meu corpo em movimento
minha voz à procura
do seu próprio lamento.
Meu limão de amargura meu punhal a escrever
nós parámos o tempo não sabemos morrer
e nascemos nascemos do nosso entristecer.
Meu amor meu amor
meu nó e sofrimento
minha mó de ternura
minha nau de tormento
este mar não tem cura este céu não tem ar
nós parámos o vento não sabemos nadar
e morremos morremos devagar devagar.
meu corpo em movimento
minha voz à procura
do seu próprio lamento.
Meu limão de amargura meu punhal a escrever
nós parámos o tempo não sabemos morrer
e nascemos nascemos do nosso entristecer.
Meu amor meu amor
meu nó e sofrimento
minha mó de ternura
minha nau de tormento
este mar não tem cura este céu não tem ar
nós parámos o vento não sabemos nadar
e morremos morremos devagar devagar.
segunda-feira, 5 de outubro de 2009
SONETO I de WILLIAM SHAKESPEARE
Ver um ser belo incita a desejar
Que a Rosa da beleza não pereça;
Mas, como a flor aberta há-de murchar,
Num tenro herdeiro, ao menos, se não esqueça.
Mas tu, que só teus lindos olhos vês,
Gastas contigo todo o teu calor;
Mudas em fome o que a abundância fez;
Cruel, nem a ti próprio tens amor.
Tu, que és do mundo, agora, o ornamento,
Arauto, sem rival, da Primavera,
No teu botão enterras teu contento
E desperdiças quanto em ti prospera.
Tem dó do mundo, ou sê, assim, glutão,
E leva o que lhe deves p'ra o caixão.
Que a Rosa da beleza não pereça;
Mas, como a flor aberta há-de murchar,
Num tenro herdeiro, ao menos, se não esqueça.
Mas tu, que só teus lindos olhos vês,
Gastas contigo todo o teu calor;
Mudas em fome o que a abundância fez;
Cruel, nem a ti próprio tens amor.
Tu, que és do mundo, agora, o ornamento,
Arauto, sem rival, da Primavera,
No teu botão enterras teu contento
E desperdiças quanto em ti prospera.
Tem dó do mundo, ou sê, assim, glutão,
E leva o que lhe deves p'ra o caixão.
domingo, 4 de outubro de 2009
Regressei de Lisboa, depois de uns dias fantásticos, e achei lindo a montra desta livraria. O respeito pelos livros de "culto" da editora & etc de Vitor Silva Tavares.
Situa-se no percurso "intelectual" da cidade - Rua da Misericórdia (onde viveu Luiza Neto Jorge), Rua do Combro (Livraria Letra Livre), Rua do Século, Rua Garrett ( com o famoso café A Brasileira e a escultura de Fernando Pessoa), Rua da Emenda (onde existe a editora &etc), Rua Anchieta ( aos Sábados banca de livros de várias editoras e livrarias), Praça de Camões, Rua da Trindade ( na esquina a Cotovia), Chiado etc.
Consegui adquirir um livro de 2000, de Unica Zurn, o famoso "O Homem Jasmim", publicado pela editora & etc . Unica Zurn viveu durante 15 anos com Hans Bellmer, e foi a sua grande inspiração na fase das bonecas amputadas e fragmentadas. Assim como para Unica Zurn, o contacto com Bellmer despoletou todo um mundo criativo de anagramas obsessivos e de histórias autobiográficas. Este relacionamento terminou com o suicídio de Unica Zurn. Atirou-se de uma janela do atelier de Bellmer, depois de vários internamentos e de fugas do real.
AL BERTO
Eras novo ainda
mal sabias reconhecer os teus próprios erros
e o uso violento que de noite eu fazia deles
...esta cama de minerais acesos...
escrevo para despertar a fera de sol pelo corpo
escorrem aves de cuspo para a adolescência da boca
e junto ao mar existe ainda aquele lugar perdido
onde a memória te imobilizou...
enumero as casas abandonadas ao sangue dos répteis
surpreendo-te quando me surpreendes...
...pela janela espio a paisagem destruída
e o coração triste dos pássaros treme...
quando escrevo mar
o mar todo entra pela janela
onde debruço a noite do rosto tocado...me despeço
mal sabias reconhecer os teus próprios erros
e o uso violento que de noite eu fazia deles
...esta cama de minerais acesos...
escrevo para despertar a fera de sol pelo corpo
escorrem aves de cuspo para a adolescência da boca
e junto ao mar existe ainda aquele lugar perdido
onde a memória te imobilizou...
enumero as casas abandonadas ao sangue dos répteis
surpreendo-te quando me surpreendes...
...pela janela espio a paisagem destruída
e o coração triste dos pássaros treme...
quando escrevo mar
o mar todo entra pela janela
onde debruço a noite do rosto tocado...me despeço
CESARE PAVESE
Paisagem VIII
As recordações começam ao cair da tarde
com o hálito do vento a erguer o rosto
e a escutar a voz do rio. A água
é a mesma, na escuridão, dos anos mortos.
No silêncio da escuridão eleva-se um murmúrio
onde passam vozes e risos distantes;
acompanha o rumor uma cor inútil,
de sol, margens e olhos claros.
Um verão de vozes. Cada rosto contém
como um fruto maduro um sabor passado.
Cada olhar que volta conserva um gosto
a erva e a coisas impregnadas de pôr-do-sol
na praia. Conserva um hálito de mar.
Como um mar nocturno é esta vaga sombra
de ânsias e arrepios antigos, que o céu roça
e que volta ao fim de cada dia. As vozes mortas
assemelham-se à rebentação daquele mar.
As recordações começam ao cair da tarde
com o hálito do vento a erguer o rosto
e a escutar a voz do rio. A água
é a mesma, na escuridão, dos anos mortos.
No silêncio da escuridão eleva-se um murmúrio
onde passam vozes e risos distantes;
acompanha o rumor uma cor inútil,
de sol, margens e olhos claros.
Um verão de vozes. Cada rosto contém
como um fruto maduro um sabor passado.
Cada olhar que volta conserva um gosto
a erva e a coisas impregnadas de pôr-do-sol
na praia. Conserva um hálito de mar.
Como um mar nocturno é esta vaga sombra
de ânsias e arrepios antigos, que o céu roça
e que volta ao fim de cada dia. As vozes mortas
assemelham-se à rebentação daquele mar.
terça-feira, 29 de setembro de 2009
Comunicado do M.A.T.A. sobre a decisão do Tribunal Cível de Famalicão no caso do homicídio do Diogo Macedo, em 2001, quando submetido a praxes por parte da tuna a que pertencia.
Pelo M.A.T.A.,
Daniela Gama
TRIBUNAL CONSIDERA DIRECÇÃO DE UNIVERSIDADE RESPONSÁVEL PELOS ACONTECIMENTOS EM TORNO DA MORTE DE DIOGO MACEDO
Ontem o Tribunal Cível de Famalicão reconheceu a responsabilidade da Universidade Lusíada de Famalicão nos acontecimentos em torno da morte de Diogo Macedo.Em Outubro de 2001 Diogo Macedo, estudante do 4º ano de Arquitectura e membro da tuna, morreu devido a lesões cérebro-medulares, após acontecimentos ainda por esclarecer na noite em que aparentemente tinha decidido abandonar a tuna por não suportar mais as praxes a que era submetido. Inicialmente a morte tinha sido considerada acidental, mas as suspeitas de um médico do Hospital de S. João fizeram com que mais averiguações fossem efectuadas, tendo a autópsia demonstrado múltiplas escoriações corporais, além da fractura de uma vértebra cervical contraída por agressão e que teria sido a causa da morte.Na sequência destes factos, dois elementos da tuna foram constituídos arguidos. Contudo, o processo foi arquivado em 2004 por falta de provas, uma vez que seria “impossível imputar à acção de qualquer pessoa concreta a produção das lesões”. Inexplicavelmente, apesar de estarem perto de 20 pessoas nas mesmas instalações que Diogo, nenhuma destas se recordava dos acontecimentos. Após a morte reuniram-se de urgência para alegadamente gizar versões, oportunamente criando uma amnésia colectiva que se apoderou dos “amigos” e “colegas” de Diogo, impedindo-os de fornecerem qualquer pormenor. Numa sessão de tribunal em que as testemunhas estavam a ser ouvidas, o próprio juiz reconheceu o "muro de silêncio" que tinha sido criado. Uma única versão conjunta de nada.Depois do processo-crime, segue-se o processo cível. A mãe de Diogo Macedo pede uma indemnização de 210 mil euros à Fundação Minerva, que detém a Universidade Lusíada. O tribunal deu como provada a morte, em consequência de lesões provocadas. Este e outros dados levaram o Tribunal Cível de Famalicão a dar como provada a morte do estudante, em consequência de uma pancada, alegadamente, desferida durante a praxe. Estamos agora em Junho de 2009, oito anos após a morte de Diogo Macedo.Ontem assistimos a uma decisão semelhante à de outros Tribunais relativamente a casos de praxe, numa tendência crescente de responsabilização das faculdades sobre as praxes que nelas se passam. O Tribunal de Vila Nova de Famalicão considerou que a Universidade Lusíada de Famalicão (ULF), não controlou nem evitou as praxes académicas, sendo obrigada a pagar uma indemnização de 90 mil euros à família de Diogo. O Tribunal considerou provado que “Nunca a ré (universidade) teve algum controlo efectivo sobre esse tipo de praxes violentas e humilhantes. Não temos notícia que alguma vez tenha proibido a violência mencionada, aliás os factos apurados mostram a ausência de intervenção”, tendo ainda acrescentado que "Existe uma clara interdependência” com a ULF “que lhe cede espaço, subsidio e publicidade, em troca de evidente publicidade e charme académico que esse tipo de grupos traz à sua academia”.Este caso merece várias considerações:- Estranhamente, apenas 3 anos depois da morte de Diogo Macedo os acontecimentos foram tornados públicos, em grande parte devido a uma Grande Reportagem da autoria de Felícia Cabrita. Esta jornalista, numa semana de investigação no local, descobriu mais do que as polícias em três anos – isto, apesar da direcção da Lusíada ter ameaçado de expulsão qualquer aluno que lhe prestasse declarações! Por outro lado, os relatos da mãe deixam claro que a escola sempre soube o que aconteceu; inclusivamente, tentou sempre silenciar as suas tentativas para descobrir as causas da morte do seu filho. Ao que parece, o poder da Universidade Lusíada conseguiu silenciar as vozes que poderiam esclarecer as circunstâncias em que este aluno morreu.- Nesta tuna (e em todas as outras tunas universitárias), a democracia é inexistente, assim como as regras básicas de respeito pela expressão individual. O relacionamento é totalmente condicionado por uma hierarquia absolutamente rígida. Quem as integra obedece a uma autêntica estrutura de castas com claro prejuízo para quem está "mais abaixo" na cadeia. Este era o caso do Diogo, que apesar de já a integrar há 4 anos continuava a ser "caloiro" e alvo de animosidade, a qual esteve na origem da sua decisão de abandonar o grupo.- À semelhança do que se passa noutras instituições do Ensino Superior, é evidente a conivência entre Direcções e grupos de estudantes que têm como base a hierarquização, submissão e proliferação de comportamentos repressores e inerentemente violentos. Isto exige uma reflexão por parte da Sociedade e das Instituições sobre aquilo que são e sobre o que pretendem oferecer aos seus alunos. Não podemos perpetuar estas "tradições" imaginárias que se apoderaram do vazio cultural e intelectual que tem caracterizado as escolas nestes últimos anos.- Este caso extravasa os contornos praxísticos, a gravidade é a de um homicídio. Homicídio que ocorreu no contexto da praxe, numa tuna, entre estudantes, nas instalações de uma Faculdade do Ensino Superior. Estes factos obrigam-nos a pensar na arbitrariedade da "tradição". A "tradição" não pode cobrir de impunidade actos como este, os muros têm de ser derrubados e permitir que a verdade venha ao de cima.
27 de Setembro de 2009
M.A.T.A. – Movimento Anti-"Tradição Académica"
VALE O QUE VALE
Apesar de transcrevermos na íntegra este comunicado que nos caiu no caixote do lixo electrónico, há que sublinhar apenas e somente um aspecto relevante em todo o sucedido: A Escola, dada a sua “abertura ao mundo”, é hoje o lugar que, em concentrado, melhor reflecte as divisões de classe da sociedade e respectivos comportamentos. A entrada do homicídio na Escola constitui apenas o patamar acima do assalto à mão armada (que já lá entrou), da humilhação sexual (que sempre lá esteve, nomeadamente nos colégios internos religiosos, militares ou civis), da subversão da ordem hierárquica (que já lá estava). A “praxe” escolar é somente um ensaio à bruta para o futuro assédio, muitas vezes nem sequer dissimulado, nos locais de trabalho.Há, portanto, que ir mais longe do que ser-se parcelarmente «anti-“tradição académica”»: há que ser-se ANTI, de raiz e em extensão!
Paulo da Costa Domingos
postagem do blogue frenesi
segunda-feira, 28 de setembro de 2009
CENTRO MÁRIO DIONÍSIO - INAUGURAÇÃO 30 DE SETEMBRO- LISBOA
Quarta -Feira, 1 de Outubro, pelas 18h. A Paleta e o Mundo - Uma longa conversa por VITOR SILVA TAVARES
Centro Mário Dionísio - Rua da Achada, 11, Lisboa
CASA DA ACHADA
http://www.centromariodionisio.org/localizacao.php


Centro Mário Dionísio - Rua da Achada, 11, Lisboa
CASA DA ACHADA
http://www.centromariodionisio.org/localizacao.php


A PROPÓSITO DE UMA QUINTA DE LEITURA COM O POETA CONVIDADO JOSÉ LUÍS PEIXOTO
sábado, 26 de setembro de 2009
JOSÉ LUÍS PEIXOTO
o tempo, subitamente solto pelas ruas e pelos dias,
como a onda de uma tempestade a arrastar o mundo,
mostra-me o quanto te amei antes de te conhecer.
eram os teus olhos, labirintos de água, terra, fogo, ar,
que eu amava quando imaginava que amava. era a tua
a tua voz que dizia as palavras da vida. era o teu rosto.
era a tua pele. antes de te conhecer, existias nas árvores
e nos montes e nas nuvens que olhava ao fim da tarde.
muito longe de mim, dentro de mim, eras tu a claridade.
o tempo, subitamente solto pelas ruas e pelos dias,
como a onda de uma tempestade a arrastar o mundo,
mostra-me o quanto te amei antes de te conhecer.
eram os teus olhos, labirintos de água, terra, fogo, ar,
que eu amava quando imaginava que amava. era a tua
a tua voz que dizia as palavras da vida. era o teu rosto.
era a tua pele. antes de te conhecer, existias nas árvores
e nos montes e nas nuvens que olhava ao fim da tarde.
muito longe de mim, dentro de mim, eras tu a claridade.
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