
quinta-feira, 14 de abril de 2011
SEM MEDO DA VIRGÍNIA WOOLF
Há 70 anos, numa dia como o de hoje, uma mulher ainda jovem, magra, branca, feminil, caminha solitária na margem do rio perto da sua casa na aldeia de Rodmell, em Sussex, onde se tinha refugiado com o seu marido Leonard fugindo aos bombardeamentos alemães sobre Londres. E enquanto vai pisando a areia grossa da margem, vai colhendo com as suas longas mãos de louca tranquila, como se flores fossem, as pedras com que vai enchendo os bolsos do casaco. Desliza, depois, rio adentro, deixando-se abraçar pelas águas profundas do rio, para, finalmente, escapar ao medo. Quem assim entrou no suicídio, com medo de viver, foi Virginia Woolf, a romancista inglesa que gostava de passear nas margens da vida sob um céu sombrio e triste, e que, fosse em Londres, na velha mansão de família no bairro de Bloomsbury, fosse na casa perdida na paisagem verde negrejante de Sussex, num e noutro lugar sempre rodeada de enfermeiras, de malas para partir e regressar, de festas e convidados, escreveu romances, contos, ensaios, cartas e diários, antecipando-se a James Joyce no modo de forjar o monólogo interior e a polifonia de vozes que murmuravam tanto nos textos que escrevia como na sua mente bipolar.Por isso, não ter medo de ler Virginia Woolf, que numa época de moral vitoriana vestia calças de homem, era sufragista, fumava em público cigarros egípcios, dava conferências em círculos operários e, como se isto não bastasse para fazer dela alguém desajustado aos olhos da sociedade, ter, também, mantido uma relação lésbica com a sua amiga Vita Sackville West, poeta e mulher de um lord.O seu fim foi coerente com a sua existência inconformista e radical. Depois de uma noite sem bombardeamentos nazis, o dia 28 de Março amanheceu luminoso, transparente, frio. Antes de sair em direcção ao rio, Virginia ainda roubou à morte as três derradeiras cartas dirigidas a Leonard e à sua irmã Vanessa. Depois, tranquilamente, deixou-se abraçar pelas águas para não mais voltar a ver a claridade do dia.Vinte dias depois, um grupo de crianças haveria de encontrar o seu corpo numa das margens do rio Ouse. Talvez naquele 28 de março, temendo voltar a sofrer uma crise de loucura e não poder suportá-la, a alma de Virginia tenha, finalmente, decido não mais afrontar o inafrontável. Essa realidade intangível que nunca se chegou a compreender nem mesmo através da sua obra.
João Ventura , postagem do blog: O leitor sem qualidades
quarta-feira, 13 de abril de 2011
Poema de Emily Dickinson
I died for Beauty - but was scarce
Adjusted in the Tomb
When One who died for Truth, was lain
in an adjoining Room -
He questioned softly "Why I failed"?
"For Beauty", I replied -
"And I - for Truth - Themself are One -
We Brethren, are,"He said -
And so, as Kinsmen, met a Nigth -
We talked between the Rooms -
Until the Moss had reached our lips -
And covered up - our names -
terça-feira, 12 de abril de 2011
AMBÍGUIDADE & ANDROGINIA - O MEU FÉCTICHE - TILDA SWINTON
segunda-feira, 11 de abril de 2011
sábado, 9 de abril de 2011
sexta-feira, 8 de abril de 2011
VIRGÍNIA WOOLF
Virgínia Stephens Woolf nasceu em Londres em 1882
Se o leitor tiver à mão as fotografias de Woolf, em jovem e no fim da sua vida ( a que lhe foi tirada por Man Ray), coloque-as lado a lado, porque elas são imagens de um percurso singular e de um dos mais significativos combates espirituais do nosso século. Na primeira, é Virgínia que chama pelo lobo como as lendas célticas nos ensinaram a imaginar: o olhar virgem e fulgurante, o lobo altivo e submisso. Na outra, vê-se o lobo cansado, disposto a morrer pelo último combate de Virgínia.
No dia 28 de Março de 1941, encheu de pedras os bolsos do vestido, conscienciosa e metodicamente; entrou na ribeira Ouse, que corria da parte de baixo da sua casa de campo The Monk's House, onde ela e o marido passavam largos períodos, desde 1919; entrou com 59 anos nessa ribeira que, hoje, serve de esgotos a um dos subúrbios de Londres, e dela não voltou a sair, fazendo assim entrar, no imaginário culto do Ocidente Moderno, o fim de um grande escritor que, em vida e sexo, foi mulher. E que mulher!
Antes de o fazer, deixou escrita ao marido esta carta:
«Querido,
Tenho a dizer-lhe que me deu uma perfeita felicidade.
Ninguém faria mais do que você fez. Peço-lhe, por favor, que acredite.
Mas eu sei que nunca serei capaz de ultrapassar esta situação - e estrago-lhe a vida. É esta loucura. Nada do que me puderem dizer me convencerá do contrário. Sem mim, você poderá trabalhar e ficará melhor. Está a ver, nem sequer consigo escrever a palavra "eu", o que só prova como tenho razão Tudo o quetenho a dizer é que, até esta doença aparecer, nós éramos perfeitamente felizes. E isso deve-se inteiramente a si. Ninguém poderia ter feito mais e melhor do que você, do primeiro ao último dia. Toda a gente o sabe."
Quando escreveu esta carta, Virginia Woolf tinha entrado, há pouco mais de um ano, em depressão profunda: a última da série de depressões por que passou, em quase 60 anos de vida.
Importa pouco saber as causas das suas depressões. O que interessa são as sequelas que foram deixando, os grandes e os pequenos embates que não destruíam mas enfraqueciam, a fragilidade que, por dentro, introduziam: o sentimento de que todas as crises se reuniam numa só fatalidade, que era a de a sentir sempre mais forte e, finalmente invencível. Este é o sentimento fundamental de Virgínia Woolf: o ter por dentro, constantemente, um inimigo e um intruso, de que não se vê o rosto. O estar à mercê. Viver na mira de um caçador implacável.
Experimentem!
Disse-o mais tarde a Ethel Smith:"O meu terror da vida real manteve-me sempre enclausurada. (...) Como experiência, a loucura é aterradora, posso garantir-lho, não pode ser subestimada; e é na sua lava que eu encontro ainda quase tudo sobre o que escrevo. Tudo brota de si, já formado, completo, não a conta-gotas como acontece com os cérebros normais. E nos seis meses - e não três -, que estive de cama, aprendi muito sobre o que se chama o "eu". Depois dessa experiência, sentia-me perfeitamente incapaz de mexer, nem que fosse um pé, aterrorizada. (...)"
A depressão, que provavelmente tem uma origem orgânica, e que parece manifestar-se quando o sujeito não consegue realizar o seu luto, por um objecto de amor, irremediavelmente perdido, provoca uma dor moral extremamente viva, dores físicas que se passeiam pelo corpo, perturbações digestivas, falta de apetite, insónias, sono agitado, uma auto-desvalorização intensa, uma incontrolável deformação da realidade própria, que em nada interfere com a lucidez com que se olha a realidade exterior, e uma auto-negação que, nos casos de melancolia profunda, induz comportamentos suicidários. Antes de abordar essas paragens, o depressivo vê abrandarem-se as suas capacidades intelectuais, e passa por penosos saltos de humor que o tornam dificilmente suportável aos olhos dos que o rodeiam.
Virgínia Woolf conheceu esse estado, aos 13 anos, aos 22 anos, aos 31 anos e, pela última vez, aos 59 anos.
Este, o inimigo invisivel que decidiu combater. Como personalidade construida em torno de uma férrea vontade mental, com gostos acentuados e firmes, mas sem um corpo onde (e com que) se ancorar na realidade,o seu combate consistiu na procura deste estar à mercê, e como encontrar um abrigo onde o mal a não pudesse encontrar. Um abrigo feito de solidão e de silêncio, sólido sem ser rígido, inteligente mas não cínico, questionante mas não céptico, diáfano sem ser crédulo, nem beato. Um estado que se encontraria algures entre os "meios hábeis" do zen, a fé tomista como a viu Maritain, o conhecimento do quarto tipo de Espinoza.
A avis rara, até hoje procurada e não encontrada pela intelectualidade ocidental. Não se deve esquecer que Pessoa e Joyce, contemporâneos de Virgínia, viveram estados relativamente próximos.
Essa procura encontrou, no estado das relações entre os homens e as mulheres, o seu primeiro paradigma; estendeu-se à análise das relações entre a intimidade própria e o mundo móvel e hostil, raramente acolhedor; alargou-se em tentativas várias de criação de um estilo de vida permanente e próprio, na vivência de afectos intensos, livres e não hipócritas; para, finalmente, vir a encontrar a sua maturidade na indagação estética e na elaboração de uma prática artística que revolucionasse as técnicas narrativas.
Cartas íntimas a Vita Sackeville- West, Colares Editora
segunda-feira, 4 de abril de 2011
2 Poemas de LUÍS MIGUEL NAVA
A POUCO E POUCO
Há entre o coração e a pele cumplicidades para cujo entendimento apenas corpos como o dele às vezes contribuem.
Olhando-o nos olhos não é fácil destrinçar do alcantilado coração a cama onde dormíamos, ao mais pequeno sopro o sol parece evaporar-se.
Por esse coração, ainda que escarpado, era, no entanto, fácil alcançar a pele, o mar à força de bater na rocha ia ficando a pouco e pouco em carne viva.
AO MÍNIMO CLARÃO
Talvez seja melhor não nos voltarmos
a ver, ao mínimo clarão
das mãos a pele se desavém com a memória.
As mãos são de qualquer corpo a coroa.
Das dele já nem sequer o itinerário
sei hoje muito bem, onde o horizonte
se desata o mar agora
regressa ao coração de que faz parte.
Ainda é o mar contudo o que se vê
florir onde ele chegar. Chamando a esse
rapaz rebentação,
o céu rasga-se à volta dos seus ombros.
domingo, 3 de abril de 2011
CAFÉ NO CHIADO - Lisboa com amor
sábado, 2 de abril de 2011
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