domingo, 2 de agosto de 2009
ALLEN GINSBERG
América dei-te tudo e agora não sou nada.
América dois dólares e vinte e sete cêntimos em 17 de Janeiro de 1956
Não aguento a minha própria mente.
América quando poremos fim à guerra entre os homens?
Vai-te lixar com a tua bomba atómica.
Não me sinto nada satisfeito não me chateies.
Não vou escrever o meu poema enquanto não estiver perfeitamente equilibrado.
América quando serás tu angélica?
Quando é que te despes?
Quando é que olharás para mim através do sepulcro?
Quando é que serás digna do teu milhão de trotzkistas?
América porque estão as tuas bibliotecas cheias de lágrimas?
América quando é que enviarás os teus ovos para a Índia?
Estou farto das tuas exigências loucas.
Quando poderei eu entrar no supermercado e comprar tudo o que preciso com a minha beleza?
(...)
Antologia da Novissima Poesia Norte Americana, Manuel de Seabra, Editorial Futura, 1973
fingir que está tudo bem: o corpo rasgado e vestido
com roupa passada a ferro, rastos de chamas dentro
do corpo, gritos desesperados sob as conversas: fingir
que está tudo bem: olhas-me e só tu sabes: na rua onde
os nossos olhares se encontram é noite: as pessoas
não imaginam: são tão ridículas as pessoas, tão
desprezíveis: as pessoas falam e não imaginam: nós
olhamo-nos: fingir que está tudo bem: o sangue a ferver
sob a pele igual aos dias antes de tudo, tempestades de
medo nos lábios a sorrir: será que vou morrer? pergunto
dentro de mim: será que vou morrer?, olhas-me e só tu sabes:
ferros em brasa, fogo, silêncio e chuva que não se pode dizer:
amor e morte: fingir que está tudo bem: ter de sorrir: um
oceano que nos queima, um incêndio que nos afoga.
sábado, 1 de agosto de 2009
Mais uma estrela que se apagou
Merce Cunningham 1919 - 2009
Era considerado o maior coreógrafo vivo. Até segunda-feira passada, morreu em Nova Iorque, aos 90 anos. Sempre ligado às artes plásticas e musicalidades diversas. Colaborou com Rauschenberg, Jaspers Johns, Radiohead ou Sigur Rós. Esteve sempre associado a John Cage, com o qual viveu uma parceria pessoal e artística, de 1994 até 1992 - data da morte do compositor. Tive o privilégio de assistir ao vivo, por duas vezes e no Porto, a bailados deste coreógrafo, com música de Jonh Cage e cenários de Andy Warhol. O último espectáculo foi em 2001 - Porto Capital da Cultura. Quando Cunningham apareceu no palco, com 82 anos, elegante, como uma escultura de Giacometti, o corpo do ballet inscrito em cada gesto, a plateia ovacionou, de pé, durante vários minutos. Uma emoção colectiva ÚNICA.
sexta-feira, 31 de julho de 2009
Paulo da Costa Domingos
quarta-feira, 29 de julho de 2009
Luís Miguel Nava
Tem furos na consciência, este rapaz. Tem a memória
em cacos. Que fará da minha infância quando entrar no
rasgão com que deu a todo o comprimento dela? Que sabe
ele do labirinto onde uma letra se extravia ou do horizonte
em que pressinto um sublinhado? Ignoro o que ele fará,
bem como o que dirá ao ver num poema o céu em entre-
linhas.
A Inércia da Deserção, editora & etc, Lisboa, 1981
segunda-feira, 27 de julho de 2009
LUÍS MIGUEL NAVA
Às vezes procurava-me, trazia
no sangue a acentuação
do corpo, o que no fundo
dele é marítimo corria à superfície.
















































