5 POEMAS de
ISABEL DE SÁLembrar-te, é amar os corpos que partilhamos. O que me atrai em ti pertence à sabedoria do texto, à primeira palavra murmurada. O que me atrai no amor é a indeterminação, o impulso inicial. Os rostos que amei na tua ausência foram tocados por ti através da minha pele. Ninguém pode esclarecer a sua alma à margem deste pacto. O nosso amor desfaz o trio.
É na treva que sou obrigada a reconhecer o que escrevo. Sucumbo a uma grave abstracção de pensamento donde chego a sair tocada pela invocação da palavra.
DANCEI CONTIGO
Dancei contigo ao som
de uma canção sentimental
da minha adolescência. No teu pescoço
o perfume, sobre a mesa o desenho
por pintar, a luz do candeeiro,
a caixa de aguarelas Rembrandt.
Releio os poemas
do que nasceu em quarenta e cinco
e, na cassete, a canção chega ao fim.
Dancei contigo beijando-te
o pescoço, a pele bronzeada
do sol deste Verão.
Só o lume dos teus beijos rompea treva onde a solidão nos mata.Enrolamos a vida no escuro,na semente de um amor atribulado.Conhecemos o ritmo e a sede,a convulsão do desamparo.No sentido do corpo, no acertodesce a força pelos braçosna violenta festa do prazer.Tudo o que dissesteno desaforo da paixãosó podia incendiar a vida inteirae encher de esperança o universo.REALIDADEPor causa de um livrovieste ao meu encontro.Era Verão, não sabias de nadanem isso interessava. Palavrasamavam-se fora de ti,no atropelo das emoções.Lá chegaria a primeira vez,o encontro apressado num lugarpúblico. Desfeito o erroao toque da pele, não seise havia medo, a paixão queria-meno lugar exacto do teu coração.Palavras enrolaram-se na sombrada vida a dor do sentimento.Atingido o espírito, o tempoda infãncia, a realidade. Em tia solidão que o prazernão mata. Quero a belezados versos revelada.Alguns anos passaram sobrea nossa história que não acabou.A tarde envelhece e escrevo istosem saber porquê.CELEBRAÇÃO
Que dizer do surto de afecto unindo o que parecia desligado, não sabemos, Partilhamos a indeterminação, o lume de um instante.
Ela geme porque sente a carícia e a dureza desse caule e abre-se até onde não é mais possível. Penetro em ti o centro donde irradia o prazer, repetes o gesto, violentas o que se esconde nesta noite de Setembro, na celebração da própria vida. Os corpos exigem intimidade recíproca. Há um sentido subterrâneo neste encontro.
Repetir o Poema, colecção Finita Melancolia, Quasi Edições, Famalicão, 2005