segunda-feira, 24 de novembro de 2008
Dir-me-ás que a paixão se desfez,
que já esqueceste o nome e os poemas.
Dir-me-ás
que não queres a loucura
dos sentidos, que tens medo
e foges na direcção do pântano
onde o brilho da lama
serve a exclusão.
Entre nós o mundo, outro amor,
a curva da tua nuca e esse olhar
de quem acorda lentamente. De mim
o corpo defendia-se do escuro enquanto
o tempo sepultava na cinza a nossa pele.
Um lençol de sombra sobre as pernas
no tumulto onde ardia o coração.
Molhar as mãos de lágrimas só reacende
a mágoa de viver depois de ter acontecido.
Importa lembrar o sucesso, o esplendor
do instinto que nos levou ao encontro.
O Brilho da Lama, & etc, 1999, Lisboa
sábado, 22 de novembro de 2008
DETONAÇÃO
De repente a luz branca
cobriu
as casas.
Um segundo isolado no tempo:
detonação
Senti toda a cidade
estremecer.
Relembrei cada rua
onde a distância
preenche os nossos passos, as palavras,
a escuridão
a dois, da mesma boca
o beijo e os poemas. Mas é agora
cruel e despida
a realidade. Nunca soube encarar
confesso,
a forma como
me sorrias, a superfície quente do teu corpo,
a frieza dos teus lugares
e mais que tudo
a imobilidade do teu amor.
Neste mundo escuro e destruído
devo caminhar
pelas canções tristes,
pelas tardes cinzentas.
Pela consequência da explosão. Não é
mentira
quando te digo
que não perco tempo a chorar:
o choro és tu.
Chorar
é não esquecer cada uma
das camas em que me deste vida, cada um
dos sítios onde o teu amor
traía os dias.
Doeu-me ver despertar
o que dentro de mim dormia
mas nada mais
me doi.
Nem o abandono ao deserto.
Vejo a claridade algures
num céu longínquo
e não quero ficar neste lugar
onde o sangue me seca
as mãos
e cardos me ferem
o corpo.
quarta-feira, 19 de novembro de 2008
terça-feira, 18 de novembro de 2008
A CÂMARA CLARA
de ROLAND BARTHES
(...) Todavia, quando se trata de uma pessoa - e já não de uma coisa - a evidência da Fotografia tem todo um outro sentido. Ver fotografados uma garrafa, um ramo de íris, uma galinha, um palácio, apenas compromete a realidade. Mas um corpo, um rosto e, mais ainda, tantas vezes os de um ser amado? Uma vez que a Fotografia (é esse o seu noema) autentifica a existência de tal pessoa, eu quero encontrá-la por inteiro, isto é, na essência, «tal como ela própria é», para além de uma mera semelhança, civil ou hereditária. Aqui , a crueza da foto torna-se mais dolorosa, porque ela só pode responder ao meu desejo louco através de qualquer coisa de indizível: evidente (é a lei da fotografia) e, contudo, improvável (não posso prová-lo). Esse qualquer coisa é o ar.
O ar de um rosto é indecomponível (a partir do momento em que posso decompor, eu provo ou recuso; em suma, duvido, afasto-me da Fotografia que, por natureza, é toda a evidência: a evidência é aquilo que não quer ser decomposto). O ar não é um dado esquemático, intelectual, como o é uma silhueta. O ar também não é uma simples analogia - por muito avançada que seja - como o é a «semelhança». Não, o ar é essa coisa exorbitante que leva do corpo à alma - animula, pequena alma individual, para uns boa, para outros má. (...) O ar é, assim, a sombra luminosa que acompanha o corpo; se a foto não consegue mostrar esse ar, então o corpo vai sem sombra, e, uma vez cortada essa sombra, como no Mito da Mulher sem Sombra, nada mais resta do que um corpo estéril, é através desse umbigo subtil que o fotógrafo dá vida. Se ele não sabe, ou por falta de talento ou por falta de oportunidade, dar à alma transparente a sua sombra clara, o sujeito morre para sempre. (...)
domingo, 16 de novembro de 2008
por SLINKACHU
Slinkachu, um artista insólito e misterioso, mantido no anonimato, decidiu criar um mundo em miniatura. Constrói peças que consegue transportar no bolso e espalha-as pelas ruas de Londres onde circulam milhões de pessoas. A ideia por detrás desta obra – é transmitir a solidão e a melancolia das grandes cidades, onde as pessoas são esmagadas pelo ambiente que as rodeia, quase sem o vizinho do lado dar por isso. Na verdade, peças como uma caixa de hambúrgueres a servir de nave espacial, entre muitas outras obras, resistem apenas dias antes de serem "pisadas" pela multidão e só os mais atentos dão por elas.
sábado, 15 de novembro de 2008
MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO aquém de si próprio
por Maria Manuela Brazette
(Texto publicado na Revista Portuguesa de Psicanálise, n.14, 1996)
Através da sua poesia, Mário de Sá-Carneiro mostra uma enorme necessidade de se conhecer e uma ânsia desesperada de se ligar a Alguém para poder viver e gostar de si próprio. Com espantosa lucidez e grande capacidade de análise, fala do seu mundo interior e descreve, em linguagem poética, fenómenos como a despersonalização, a susceptilidade narcísica, a dificuldade de identificação e de relação com o Outro. Neste trabalho dá-se primazia à palavra de Mário de Sá-Carneiro.
"É desolador como sabemos pouco de nós. Tudo é silêncio em nossa volta. O que é a vida? O que é a morte?...Donde somos, para onde viemos, para onde vamos?...Mistérios. Nuvens. Sombra fantástica...E o homem de siso não crê nos espectros!...Mas não seremos espectros nós próprios?O Mistério?...Olhem-nos: O Segredo Total, o Mistério Maior, somos nós, em verdade...Ah!, diante dum espelho, devíamos sempre ter medo! Deixemos o futuro, esqueçamos Amanhã -sonhadores heróicos de Além. Entretanto olhemos o passado - tentemos vará-lo, saber ao menos quem fomos Aquém".
Palavras de Mário de Sá-Carneiro ditas pela personagem da novela A estranha morte do Prof.Antena.
sexta-feira, 14 de novembro de 2008
Amar!
Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: Aqui...além...
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente
Amar!Amar!E não amar ninguém!
Recordar?Esquecer?Indiferente!...
Prender ou desprender?É mal?É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!
Há uma Primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!
E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder... pra me encontrar...
Ai as almas dos poetas
Não as entende ninguém;
São almas de violetas
Que são poetas também.
Andam perdidas na vida,
Como as estrelas no ar;
Sentem o vento gemer
Ouvem as rosas chorar!
Só quem embala no peito
Dores amargas e secretas
É que em noites de luar
Pode entender os poetas
E eu que arrasto amarguras
Que nunca arrastou ninguém
Tenho alma pra sentir
A dos poetas também!
quarta-feira, 12 de novembro de 2008
Na primeira sessão vai estar presente o artista valter hugo mãe.




































