quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Gravado num serão em casa de Amália Rodrigues com Vinicius de Moraes, David Mourão-Ferreira; José Carlos Ary dos Santos e Natália Correia

POEMA DE ARMINDO RODRIGUES

LIBERDADE

Ser livre é querer ir e ter um rumo
e ir sem medo,
mesmo que sejam vãos os passos.
É pensar e logo
transformar o fumo
do pensamento em braços.
É não ter pão nem vinho,
só ver portas fechadas e pessoas hostis
e arrancar teimosamente do caminho
sonhos de sol
com fúria de raiz.
É estar atado, amordaçado, em sangue , exausto
e, mesmo assim,
só de pensar
gritar
e só de pensar ir
ir e chegar ao fim.
GEORGE TOOKER




















































POEMA DE ADÍLIA LOPES

Clarisse Lispector,
a senhora não devia
ter-se esquecido
de dar de comer aos peixes
andar entretida
a escrever um texto
não é desculpa
entre um peixe vivo
e um texto
escolhe-se sempre o peixe
vão-se os textos
fiquem os peixes
como disse Santo António
aos textos

Do outro lado
da ponte
está um monte
e do outro lado
do monte
está uma fonte

A vida, Augusto Comte, é um mar de miosótis
a vida é andar para cá e para lá

de "Clube da Poetisa Morta, Obra, Lisboa, Mariposa Azul, 2000

domingo, 2 de agosto de 2009


A REBELDIA SAUDÁVEL E INSURRECTA DE SARAH LUCAS















INSTALAÇÕES E FOTOS DE SARAH LUCAS








































ALLEN GINSBERG

AMÉRICA

América dei-te tudo e agora não sou nada.
América dois dólares e vinte e sete cêntimos em 17 de Janeiro de 1956
Não aguento a minha própria mente.
América quando poremos fim à guerra entre os homens?
Vai-te lixar com a tua bomba atómica.
Não me sinto nada satisfeito não me chateies.
Não vou escrever o meu poema enquanto não estiver perfeitamente equilibrado.
América quando serás tu angélica?
Quando é que te despes?
Quando é que olharás para mim através do sepulcro?
Quando é que serás digna do teu milhão de trotzkistas?
América porque estão as tuas bibliotecas cheias de lágrimas?
América quando é que enviarás os teus ovos para a Índia?
Estou farto das tuas exigências loucas.
Quando poderei eu entrar no supermercado e comprar tudo o que preciso com a minha beleza?
(...)


Antologia da Novissima Poesia Norte Americana, Manuel de Seabra, Editorial Futura, 1973

CINDY SHERMAN












José Luís Peixoto

fingir que está tudo bem: o corpo rasgado e vestido
com roupa passada a ferro, rastos de chamas dentro
do corpo, gritos desesperados sob as conversas: fingir
que está tudo bem: olhas-me e só tu sabes: na rua onde
os nossos olhares se encontram é noite: as pessoas
não imaginam: são tão ridículas as pessoas, tão
desprezíveis: as pessoas falam e não imaginam: nós
olhamo-nos: fingir que está tudo bem: o sangue a ferver
sob a pele igual aos dias antes de tudo, tempestades de
medo nos lábios a sorrir: será que vou morrer? pergunto
dentro de mim: será que vou morrer?, olhas-me e só tu sabes:
ferros em brasa, fogo, silêncio e chuva que não se pode dizer:
amor e morte: fingir que está tudo bem: ter de sorrir: um
oceano que nos queima, um incêndio que nos afoga.

sábado, 1 de agosto de 2009

"NUNCA DEVEMOS ESQUECER QUE NENHUM HOMEM PODE FUGIR DE SI MESMO"
Goethe

*Fuga

//n.f. acto ou efeito de fugir; retirada rápida; evasão; acto de não fazer ou assumir o que se devia; subterfúgio; saída de gás ou líquido; oportunidade; etc.

"Dicionário da Língua Portuguesa", Porto Editora, 2009

COREOGRAFIAS DE CUNNINGHAM










Cage, Allen Ginsberg e Cunningham


Cunningham com John Cage


Merce Cunningham







Mais uma estrela que se apagou

Merce Cunningham 1919 - 2009

Era considerado o maior coreógrafo vivo. Até segunda-feira passada, morreu em Nova Iorque, aos 90 anos. Sempre ligado às artes plásticas e musicalidades diversas. Colaborou com Rauschenberg, Jaspers Johns, Radiohead ou Sigur Rós. Esteve sempre associado a John Cage, com o qual viveu uma parceria pessoal e artística, de 1994 até 1992 - data da morte do compositor. Tive o privilégio de assistir ao vivo, por duas vezes e no Porto, a bailados deste coreógrafo, com música de Jonh Cage e cenários de Andy Warhol. O último espectáculo foi em 2001 - Porto Capital da Cultura. Quando Cunningham apareceu no palco, com 82 anos, elegante, como uma escultura de Giacometti, o corpo do ballet inscrito em cada gesto, a plateia ovacionou, de pé, durante vários minutos. Uma emoção colectiva ÚNICA.

FREEDOM


imagem retirada do blog de Ana Abrunhosa

sexta-feira, 31 de julho de 2009


NARRATIVA
Paulo da Costa Domingos

Na actualidade, volta a não existir lugar onde não grasse a censura. Erva daninha tudo invadindo, lares adentro. À escuta. Interiorizada, auto-contida, à coca de oportunidades para fazer imperar os velhos dogmas. Os interditos, os "parece mal", os "não se fala com a boca cheia", as afixações proibidas! Mas nada, nada, nada nunca mais poderá envolver-nos julgando-se dissimulado, porque, se a virgindade se perdeu, também a obediência veio ajoelhar à sua própria lama.
A terrível saída da adolescência vinha aí: insaciável. A esticões luciferinos, no género Lúcifer Sem Dor. Daí por diante, a um único apelo tenho respondido: acção poética - e será como atravessar um campo de minas.
frenesi, 2009, Lisboa

quarta-feira, 29 de julho de 2009




Luís Miguel Nava

EM ENTRELINHAS

Tem furos na consciência, este rapaz. Tem a memória
em cacos. Que fará da minha infância quando entrar no
rasgão com que deu a todo o comprimento dela? Que sabe
ele do labirinto onde uma letra se extravia ou do horizonte
em que pressinto um sublinhado? Ignoro o que ele fará,
bem como o que dirá ao ver num poema o céu em entre-
linhas.

A Inércia da Deserção, editora & etc, Lisboa, 1981