quarta-feira, 13 de outubro de 2010

«Mesmo quando pinto um ser vivo, crio sempre apenas uma imagem, uma coisa, não um ser humano.»
Marlene Dumas

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

JOÃO BOTELHO - FILME

Quase trinta anos depois do seu primeiro filme - Conversa Acabada (1981) - construído a partir de poemas e da correspondência de Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro, o realizador voltou a imergir no universo de Pessoa, atraído pela índole do guarda-livros da Rua dos Douradores, pelos seus apontamentos sobre a luz (ele diz que se devem iluminar os sapatos das pessoas comuns com a mesma luz que se ilumina a cara dos santos"), o abrandamento e a aceleração do tempo (coisas próprias do sonho, e do cinema) -e a sensação de que é um texto para ler em voz alta. "Quero que se oiçam as palavras todas, todas."
fragmento do texto de apresentação, Teatro Nacional de São João, Porto

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

A inocência de Pedro Colaço











A inocência é algo que quero perseguir na minha obra, seja com que material for. É através de uma ideia de inocência que nós pensamos que nos podemos descobrir. Cada vez é mais difícil não nos depararmos com a realidade ou com a versão negra das coisas.
Ang Lee

terça-feira, 28 de setembro de 2010

GRAÇA MARTINS - Trabalho Plástico





























ARTE FEMINISTA

No dia 30 de Setembro, pelas 21.30h, no
Piano-Bar, Clube Literário do Porto
Tertúlia mensal da UMAR

ARTE FEMINISTA

GRAÇA MARTINS (artista plástica)
uma das convidadas

Clube Literário do Porto , Rua Nova da Alfândega, 22,Porto.








quarta-feira, 22 de setembro de 2010

GOTTFRIED HELNWEIN







PEDRAS NOCTURNAS E DIURNAS

Não se pede segredos a uma pedra. Diz-se à criança: «Fica muda, de pedra».
Sempre houve pedras mais pedras que outras que são preciosas, pedras que se tingem das cores que assombram. Pedras que dão sombras para adormecer. Pedras que de noite se escondem no ar, assustam. Pedras que cortam árvores e outras que adormecem a seus pés, lembram rebanhos curvados. Há pedras que estão de cabeça levantada à espera da mão de Deus?
(...)
José Emílio-Nelson
A Alegria Do Mal, Obra Poética I, 1979-2004, Edições Quasi, 2004

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

AMAR...FELIZ É QUEM SABE AMAR


Algumas palavras sábias de HERMANN HESSE

Quanto mais envelhecia, quanto mais insípidas me pareciam as pequenas satisfações que a vida me dava, tanto mais claramente compreendia onde eu deveria procurar a fonte das alegrias da vida. Aprendi que ser amado não é nada, enquanto amar é tudo.O dinheiro não era nada, o poder não era nada. Vi tanta gente que tinha dinheiro e poder, e mesmo assim era infeliz. A beleza não era nada. Vi homens e mulheres belos, infelizes, apesar de sua beleza.Também a saúde não contava tanto assim. Cada um tem a saúde que sente. Havia doentes cheios de vontade de viver e havia sadios que definhavam angustiados pelo medo de sofrer. A felicidade é amor, só isto. Feliz é quem sabe amar. Feliz é quem pode amar muito. Mas amar e desejar não é a mesma coisa. O amor é o desejo que atingiu a sabedoria. O amor não quer possuir. O amor quer somente amar.

domingo, 5 de setembro de 2010







PARA SEMPRE (UM ANAGRAMA)

Faço da morte um silêncio longo, de
imagens que perpassam entre a música,
lentamente perco a lucidez, não sei onde estou,
incide em mim a pálida luz da loucura e
perco-me a querer dizer-te o nome
entre todas as palavras vãs que fazem o dia.

Procuro entre as vozes um momento
em que regresses, e desta vez me toques,
rasando o que em mim é
desejo e paixão e devaneio, no
interior da tristeza,
do cessar fogo, do
olho do relógio que vê além da meia-noite.

Perco a vida
ao dar-me assim, sem contrapartidas,
rente à morte que
antevejo quando te olho nos olhos.

Silêncio e dor, uma casa vazia
em que a única luz é ainda a
memória de te encontrar,
penetrando as trevas a que me
rendi e saindo triunfante e
eternamente sem mim.


Lisboa, 15.3.10

JOÃO BORGES

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

A infância é um susto. Sofre as metamorfoses do medo. A infância está calada, move-se como coluna de mármore, como réptil que cresce por detrás do mar.
A infância traz a bandeira da morte. Branca. Tão branca como o sexo dos anjos.
Na infância criam-se ocupações abstractas que mover-nos-ão enquanto vivos. São incompreensão, vazio, sono, doença.
ISABEL DE SÁ
O Festim das Serpentes Novas, Brasília Editora, Porto, 1982

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

GOTTFRIED HELNWEIN






















Gottfried Helnwein


POMPE INUTILI

para a Silvina Rodrigues Lopes


Ninguém nasce; seria descabido
chamar alguém aos resíduos
de placenta que envolvem
um conjunto de orgãos
a tudo ou quase tudo predispostos.

Só os mortos, verdadeiramente,
existem. Escreveram ou não
escreveram livros, cartas de amor,
diários. Não importa: cruzaram-se
connosco, sentaram-se por vezes
à mesma mesa, acreditaram até
no terno suplício do amor.
E tinham mãos reais, ao tocarem
o rosto imberbe de que se despediam.
Um beijo, sobre rugas apenas,
conseguia tornar menos frias as manhãs.

Despedem-se muito mal, os mortos.
Embora, por uma vez, sejam
exactos e sinceros - no momento
em que descem à terra e nos impedem
de partilhar com eles um cigarro,
o último copo, uma espécie de destino.
São terrivelmente reais, os mortos.
A vida inteira não chega
para que possamos matá-los a todos,
um a um, como decerto aconselharia
a mais elementar higiene metafísica.
Dão-nos, contudo, a força necessária
para morrer cada vez mais, tolerando
dias de aluguer, casas ligeiramente
inabitáveis. Porque os outros, na
verdade, não passam de mortos imperfeitos.
Estão, como nós,um pouco demasiado vivos.

Talvez um dia, porém, venham a
assinar um poema assim (e pode até não ser
um poema, muito menos assim), em que se note,
além das influências óbvias, uma certa
- digamos - especialização no horror.
Pois é disso apenas que se trata.

Os mortos sabem-no.
A sabedoria é inútil.
A poesia também.


MANUEL DE FREITAS

A Última Porta, selecção e posfácio de José Miguel Silva, Assírio & Alvim, 2010

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

GRAÇA MARTINS - SWEET DREAMS ARE MADE OF THIS...

Para que haja amor, é preciso que o amante faça germinar possibilidades lactentes ou oprimidas do nosso ser.

Para dar lugar ao novo, o sujeito tem antes de destruir activamente tudo o que existe. E o que foi criado pelo amor só pode ser destruído por uma paixão igualmente violenta, o ódio. O ódio como libertação, o ódio como destruição, o ódio que separa, quebra e aniquila.
Vingar-se significa remeter para o futuro um acto de destruição que devíamos ter realizado logo, mas que não pudemos fazer. A vingança mantém vivo o passado, mas mantém-no vivo sob a forma de dever de destruição. A VINGANÇA DÁ UM GRANDE PRAZER, PORQUE NOS PERMITE IMAGINAR FAZER MAL AO OUTRO INÚMERAS VEZES. (…)
Francesco Alberoni

As palavras de Alberoni dão corpo à realização do meu trabalho intitulado SWEET DREAMS ARE MADE OF THIS…
Numa almofada igual a dezenas de almofadas, encontra-se o momento do pensamento invasivo que habita a insónia. Os momentos doces, que se revelaram em traição, rejeição e dão lugar à angústia.
A incompreensão das palavras, das cartas. Os lamentos. O desejo de reparação, de vingança.
O coração ferido ou ambos os corações feridos. A crueldade das palavras.
Os corações estão presos, atados ainda a pensamentos que os atingiram como facas.
As rosas oferecidas transportam um veneno mortífero. O veneno da ilusão, do equívoco.
A ilusão do amor, da paixão…

SWEET DREAMS ARE MADE OF THIS...




CEM LAMENTOS - 8 DE SETEMBRO - FÁBRICA SOCIAL/ ESCULTOR JOSÉ RODRIGUES - PORTO


CONVITE

O COLECTIVO TENDA DE SAIAS CONVIDOU 3 ARTISTAS PLÁSTICAS

A PARTICIPAR NA PEÇA CEM LAMENTOS

ANA PEREIRA
GRAÇA MARTINS
MARIANA BACELAR


http://cemlamentos.blogspot.com

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Acreditar nos homens é um esforço horrível, não conheço outro tão desgastante. A dúvida é um espinho envenenado que entra na carne e nunca sai completamente.
Agustina Bessa -Luís

Quem não admita plenamente, uma vez por outra, ... o horror da vida, nunca tomará posse da abundância e da força inexprimíveis da nossa existência: não poderá senão mover-se na sua orla, e um dia, no momento da verdade, nunca terá estado vivo nem morto.
Rainer Maria Rilke

Can you feel me?

«Pinto para dar uma face ao medo»

Paula Rego

















fragmento de quadro de Graça Martins, 2010
E há muita coisa acontecendo.
Mas está calmo debaixo das ondas,
debaixo das ondas,
no azul do meu esquecimento.

Fiona Apple

FIONA APPLE - Sullen Girl

segunda-feira, 16 de agosto de 2010


Poderia gastar muita tinta a escrever sobre um corpo ou vários. Porém apenas o instante do encontro é precioso. Viver a cena sem palavras, o ritual.Na penumbra os corpos tocam-se antes da sílaba inaugural. Começar é sempre um escândalo, é desviar a instituição da sua verdadeira finalidade e da sua inocência.

Isabel de Sá

do livro Em Nome do Corpo, edições Rolim. Lisboa, 1986

LOBO DA ESTEPE - Filme de FRED HAINES com Max Von Sidow e Pierre Clementi -1974

STEPPENWOLF - LOBO DA ESTEPE - de HERMANN HESSE - PRÉMIO NOBEL DA LITERATURA

A BÍBLIA DOS ANOS 60 E 70 - LOBO DA ESTEPE - de HERMANN HESSE
O Lobo da Estepe não é um romance fácil. Ainda mais num mercado que é avesso aos valores que o livro propõe - um mundo em que a ideia de auto conhecimento é valorizada, e se colocam questões sobre os lugares comuns de uma sociedade formatada e repleta de estratégias de marketing e vendas a que chamamos Cultura. O outro "lado", do espírito, da alma, o nosso mundo interior, a nossa "ilha", no conceito de Rousseau, não interessa a ninguém, a não ser a meia duzia de "loucos como nós?", pergunta a dado momento Harry Haller, o protagonista do Lobo da Estepe, um outsider, um misantropo de cinquenta anos, alcoólico e intelectual, invadido pela angústia e que não vê saída para a sua tormentosa condição. Todo o problema do personagem do livro de Hermann Hesse é um permanente mal-estar cuja fonte é a inadequação do seu espírito à sociedade, à "Cultura de Massas" e à vulgarização burguesa da vida e dos valores. É por isso que ele se define como "lobo da estepe". A obra apresenta inspiração surrealista pela valorização do sonho e da fantasia, influências herdadas da psicanálise de Carl Jung e Freud, influências da filosofia oriental e autobiográfico sem sombra de dúvida. Crítico do militarismo alemão, do nacional-socialismo e da guerra, Herman Hesse preocupa-se também com as grandes questões sociais e políticas do seu tempo. Nos seus livros está sempre presente o sonho da conjugação entre a tradição da Ásia e da Europa e a síntese entre o apolíneo e o dionisíaco, profetizada por Nietzsche. Deste pensador o autor herda a ideia de que a vontade de poder, expressa na luta entre valores antagonicos, é que torna a realidade social, política e economica compreensível. É desta noção que surgem as histórias de ambivalência e de tensão humanas que marcam a sua obra. A mensagem que fica deste grandioso romance são as indagações espirituais, comportamentais e de análise da sociedade de Harry Haller, que se configuram como um dos mais completos tratados sobre o ser humano. O personagem principal – que pode ser visto como um alter-ego do autor – dividido entre o seu lado “homem” e o seu lado “lobo”, confrontado por não se encaixar na sociedade mas mesmo assim, a ter que viver nela, a odiar a burguesia sem negar o seu conforto, encontra-se entregue aos seus próprios rumos, trilhando o seu próprio caminho, fazendo novas descobertas, repensando os seus valores e alcançando a felicidade em coisas tidas como impensáveis, anteriormente. Sofrimento, dúvida, perda, desagregação; tudo elevado ao extremo que um ser humano pode suportar, o que faz de o Lobo da Estepe um livro difícil de ser lido não só pela complexidade mas sobretudo pelo profundo questionamento que nos leva a interrogar-nos permanentemente. Haller redescobre-se a si mesmo, depara-se com novos mundos, novos amigos, outras atmosferas, encontra dolorosamente o seu interior para finalmente ser integrado. “Só para Loucos” avisa Hermann Hesse no início do romance. Um conselho que não pode ser desprezado. Enredo original, trama fantástica e envolvente. Clássico indispensável da literatura alemã e mundial, é um livro para quem quer sair do egocentrismo e alcançar o desenvolvimento de forma plena . Neste romance também se compreende que o ser humano é multifacetado, tem muitas vozes dentro de si, divide-se em comportamentos variados e opostos. Um bom romance para férias.

STEPPENWOLF - Born To Be Wild - EASY RIDER


Tudo acaba mas o que te escrevo continua. O melhor está nas entrelinhas.
Clarice Lispector

sábado, 14 de agosto de 2010

sexta-feira, 13 de agosto de 2010


Agosto

1.
A tua pele fulminava
o que subsistia de claridade
e de vida.

Tornei-me exterior a tudo.
Os meus amigos reconhecem
mudanças subtis
e quando alguém
me olha, desvio-me.
Os canteiros secos, nas praças
exibem a proximidade da morte
como um aviso.

Temo a agressão silenciosa.
Estar contigo
foi perceber que a dor é definitiva.

Não sei se rejeito totalmente o mundo,
mas relaciono-me com ele
estranhamente.
Agora sei que a morte
pode vir de qualquer parte
em todos os segundos.

Vila Real. 28.8.09

João Borges

Uma ferida na existência

Deixa o dia cerrar fileiras
depois do cansaço reúne
em teu redor o seu fulgor
derradeiro.
Uma camisa aqui, a escova de dentes,
livros, no chão a alma
suficiente para novos lábios
desfazerem o ferido afecto.

A tua vida espalha-se como o mercúrio
solto há-de voltar a juntar-se
por virtude tua ou coragem

porque mesmo derrotado
o sonho é um abrigo iluminado pela inquietude,
uma ferida na existência.

Fernando Luís Sampaio

de Escadas de Incêndio

I - Credo quia absurdum

Creio na vastidão ilimitada dos amores humanos
esses amores que se fundem com os domínios
inelutáveis da dor: o amor, essa claridade
que não alcançou em nossos dias
a recôndita certeza dos deuses

Amores
frágeis sob o voo irisado das aves, amores
de uma noite profunda ou de uma tarde amena
entre o regaço de outras mãos. Amores
de um país onde tudo se esquece entre
uma aurora e outra.


Paulo Teixeira

de As Imaginações da Verdade