domingo, 26 de junho de 2011
LILLIAS FRASER - HÉLIA CORREIA
Charles foi belo, ainda que por pouco tempo. O seu retrato, àquela época, permite-nos ver uma espécie de iluminação que afinal resultava simplesmente da sua pele de rapazinho quase imberbe. Falam do seu sucesso entre as mulheres. Mobilizou-as para a guerra, é certo, com os seus galanteios; mas também homens lhe cantavam a beleza, ao Bonnie Prince, o lindo príncipe, e isto não teve pouca importância na fatalidade. (...)
Durante o crescimento, há um instante em que o adolescente arruma as lendas que o foram educando na infância. E há depois o instante em que transpõe o portão sem regresso que o conduz para o terreno da maturidade. Entre esses dois momentos, fica o espaço em que tudo é vivido brutalmente, com uma intensidade que parece mais de ordem química que sentimental.
Relógio D'Água, 1ªedição 2001, 2ªedição 2002, Lisboa
Relógio D'Água, 1ªedição 2001, 2ªedição 2002, Lisboa
quinta-feira, 23 de junho de 2011
É PROIBIDO PENSAR - João dos Santos - Eu Agora Quero Ir-me Embora - Conversas com João Sousa Monteiro, Assírio & Alvim,, 1990
J.S.M. - Há uma coisa que me indigna na maneira civilizada de se viver a tristeza, que é a forma como se ensinam as crianças a negá-la.
Não é possível a uma criança ter respeito pela tristeza se tudo à sua volta a ensina a fazer precisamente o contrário. Mas não ter respeito pela tristeza, equivale, creio eu, a não ter respeito por uma parte fundamental de nós próprios. E exactamente o mesmo se poderia dizer acerca do silêncio.
J.S. - Estou de acordo. De facto a ideia do silêncio e da tristeza é longa a adquirir, e portanto longa a compreender também pela própria pessoa e pelos outros. Há provavelmente uma primeira etapa onde a criança se apercebe de que há coisas que devem ficar para nós, ou que se devem deixar ficar só com os outros, e há outras que são susceptíveis de ser comunicadas aos outros. Evidentemente que a criança vai descobrindo muitas formas de ultrapassar o problema, de o iludir, de o resolver mesmo. São os seus contos, as suas fantasias, as suas brincadeiras, os seus simulacros, com papel, com desenhos, com jogos e com histórias que conta e ouve contar, e a que acrescenta depois outras histórias, que permitem à criança expor de uma certa forma o conteúdo mais fundo e mais provável da sua própria angústia. Aliás, com os sonhos é a mesma coisa, e muitas vezes um sonho aparentemente banal envolve uma quantidade de problemas que ajudam a criança a resolver o seu problema fundamental. E um pesadelo, que parece não ter significado, é qualquer coisa que faz a criança ultrapassar, de uma forma importante, uma angústia sua. (...)
Página nº248 do Livro de Artista de Isabel de Sá
quarta-feira, 22 de junho de 2011
Poema de Diogo Vaz Pinto
UM FIO SOLTO
Encontrá-lo aí mesmo, como se
pendurado no vazio. Desenredá-lo levemente
e puxar, procurando aquele ponto de tensão
sem, no entanto, o encontrar. Puxar mais e
mais, fervorosamente. Daí a nada
mais parece que é o fio que te puxa a ti.
E puxa, horrorizando-te, enquanto
imaginas que costura do teu mundo
agora se descose.
NERVO, AVERNO, 2011
Encontrá-lo aí mesmo, como se
pendurado no vazio. Desenredá-lo levemente
e puxar, procurando aquele ponto de tensão
sem, no entanto, o encontrar. Puxar mais e
mais, fervorosamente. Daí a nada
mais parece que é o fio que te puxa a ti.
E puxa, horrorizando-te, enquanto
imaginas que costura do teu mundo
agora se descose.
NERVO, AVERNO, 2011
segunda-feira, 20 de junho de 2011
SE VOLTASSEMOS A DANÇAR
Se a cabeça se lançasse
estilhaçada pelo espaço
sujando o céu.
Se ao sair de casa
aos tropeções pelas escadas,
não reparasse nas ruas
encardidas de todas
as formas de morrer.
Se eu tivesse o corpo
seco de ti.
Se voltássemos a dançar
na lenta vertigem do amor,
eu seria então a árvore
repleta de folhagem.
Se a cabeça se lançasse
estilhaçada pelo espaço
sujando o céu.
Se ao sair de casa
aos tropeções pelas escadas,
não reparasse nas ruas
encardidas de todas
as formas de morrer.
Se eu tivesse o corpo
seco de ti.
Se voltássemos a dançar
na lenta vertigem do amor,
eu seria então a árvore
repleta de folhagem.
EDITORS/YOU DON'T KNOW LOVE
Palavras ardem
entre mim e o papel.
Perguntam por que já não
fazes parte.
A cidade inteira abriu ruas
para me indicar um caminho.
Passeios encardidos de chiclets,
prédios em construção,
espaços escuros
onde cabem delírios
que a tua voz não desmente.
Estas palavras ardem
proliferam nas areias do deserto.
E eu sou
o caminhante, exilado
entregue às sombras
de um corpo só.
Palavras ardem
entre mim e o papel.
Perguntam por que já não
fazes parte.
A cidade inteira abriu ruas
para me indicar um caminho.
Passeios encardidos de chiclets,
prédios em construção,
espaços escuros
onde cabem delírios
que a tua voz não desmente.
Estas palavras ardem
proliferam nas areias do deserto.
E eu sou
o caminhante, exilado
entregue às sombras
de um corpo só.
sábado, 18 de junho de 2011
quinta-feira, 16 de junho de 2011
"E é a voz interior que se identifica com algumas vozes, com algumas palavras que se escutam não se sabe bem se dentro ou fora, pois escutam-se do interior. E sai-se também a escutá-las, sai-se de si. E entre dentro e fora o espírito inteiro fica suspenso como fica sempre em toda a identificação de algo que no coração pulsa e algo que existe objectivamente. É o terror supremo que ataca ao escutar como certo o que se teme. E o total esquecimento de si quando se escuta o que nem sequer se sabia estar a aguardar."
Maria Zambrano
Maria Zambrano
quarta-feira, 15 de junho de 2011
LONGA É A NOITE
Quando me vou embora
não sei. Peço-te
só um murmúrio
mostra-me o rosto
Quando me vou embora
a infância foge.
Aquela última vez
à procura do fim.
Peço-te
só um murmúrio
mostra-me o rosto
fala-me de suicídio
para que possa chorar.
Isabel de Sá
segunda-feira, 6 de junho de 2011
segunda-feira, 30 de maio de 2011
Fragmentos de poemas de RILKE a HOLDERLIN
Porque nós, quando sentimos, dispersamo-nos; ai! nós
exalamo-nos e dissipamo-nos; de incandescência em incandescência
vamos dando perfume mais fraco. E então diz-nos alguém:
sim, tu entras-me no sangue, este quarto, a primavera
enche-me de ti...De que vale, se não pode deter-nos,
e nela desaparecemos e em seu torno.
Só nós
passamos por tudo como uma troca aérea.
Holderlin, tradução de Paulo Quintela, editorial Inova, 1971
ode sáfica Unter den Alpen gesungen ( Z,I,183-184) de HOLDERLIN
(...)
Estar assim sózinho com os deuses com os deuses, e
Quando perpassa a luz e rio e vento e
O tempo corre p'ra o lugar, ter perante eles
Um olhar firme.
Nada mais feliz sei nem desejo, enquanto
A mim também, como ao salgueiro, a água
Me não leve, e eu tenha de ir, a bom recado,
A dormir nas ondas;
Mas gosta de ficar em casa quem no fiel
Peito conserva os deuses, e livre eu quero,
Enquanto puder, a todas vós, línguas do céu!
Explicar e cantar.
Tradução de Paulo Quintela, Editorial Inova, 2ºedição, 1971
domingo, 29 de maio de 2011
sexta-feira, 27 de maio de 2011
Não é a nostalgia de um amor que nos faz enamorar, mas a convicção de não termos nada a perder
tornando-nos aquilo que somos; é a perspectiva do nada à nossa frente. Só então se constitui dentro de nós a disposição para o diverso e para o risco, aquela propensão de nos lançarmos no tudo ou nada, que os que estão de qualquer modo satisfeitos com o próprio ser não podem experimentar.
Francesco Alberoni
tornando-nos aquilo que somos; é a perspectiva do nada à nossa frente. Só então se constitui dentro de nós a disposição para o diverso e para o risco, aquela propensão de nos lançarmos no tudo ou nada, que os que estão de qualquer modo satisfeitos com o próprio ser não podem experimentar.
Francesco Alberoni
A propósito de ALIMENTO...
O alimento é o primeiro objecto de transição da criança, é ele que faz a ponte mãe-bebé, isto é, não é somente uma fonte de nutrição, pois estabelece e fortalece o vínculo de uma interacção compensatória de investimentos afectivos. Neste sentido, Loli (2000) e Woodman (2002) consideram que o acto de comer revela a busca de afecto maternal, comer compulsivamente tem o poder magnético, na medida que parece prometer a presença da Mãe Amorosa. Ou seja, de uma mãe que nunca chega e a sua falta transforma-se em mais volume. Em geral, o obeso padece de Alexitimia, termo de origem grega que significa: a = sem; lexis = palavra; thymos = afectividade. Para MacDougall ( 2000), ele não consegue expressar em palavras o seu estado afectivo, e não distingue um afecto do outro ou o dispersa em acção para aliviar a excitação afectiva que não suporta.
domingo, 22 de maio de 2011
sábado, 21 de maio de 2011
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