
quarta-feira, 20 de agosto de 2008
Quando a Alma Entra
terça-feira, 19 de agosto de 2008
é o primeiro passo sério na vida.»
Oscar Wilde
Breve História da Gravata
Véspera
Seríamos dois faunos sobre a praia,
Batidos pelo vento e pelo sal,
Tendo por manto apenas a cambraia
Da espuma
E, por fronteira ,
O areal.
Gémeos de corpo e alma,
Ver um era ver o outro:
A mesma voz,
A mesma transparência,
A mesma calma
De búzio, intacto, em cada um de nós!
Felicidade?
Não!
Inconsciência!
E as nossas mãos brincavam com o lume
À beira da impaciência
Ou do ciúme.
Nas Ervas
Escalar-te lábio a lábio,
percorrer-te: eis a cintura,
o lume breve entre as nádegas
e o ventre, o peito, o dorso,
descer aos flancos, enterrar
os olhos na pedra fresca
dos teus olhos,
entregar-me poro a poro
ao furor da tua boca,
esquecer a mão errante
na festa ou na fresta
aberta à doce penetração
das águas duras,
respirar como quem tropeça
no escuro, gritar
às portas da alegria,
da solidão,
Porque é terrível
subir assim às hastes da loucura,
do fogo descer à neve,
abandonar-me agora
nas ervas ao orvalho-
a glande leve.
segunda-feira, 18 de agosto de 2008
Revimos a grosseira superfície do
amor
Ninguém pudera corrompê-la tanto
por actos e palavras Estivemos
novamente deitados na aspereza
do seu leito
Um ramo na mão tinhas e quiseste
medi-lo com os lábios e metê-lo
no centro doloroso do teu corpo
Eu via as tuas mãos que procuravam
inseri-lo e guardavam
nas linhas ávidas o seu limite grosso
Interrompeste o
sono magoado do meu corpo
e comigo
dormiste sobre as manchas depois
Segredo
Não me contes do meu
vestido
que tiro pela cabeça
nem que corro os
cortinados
para uma sombra mais espessa
Deixa que feche o
anel
em redor do teu pescoço
com as minhas longas
pernas
e a sombra do meu poço
Não contes do meu
novelo
nem da roca de fiar
nem o que faço
com eles
a fim de te ouvir gritar
Volúpia
No divino impudor da mocidade,
Nesse êxtase pagão que vence a sorte,
Num frémito vibrante de ansiedade,
Dou-te o meu corpo prometido à morte!
A sombra entre a mentira e a verdade...
A nuvem que arrastou o vento norte...
-Meu corpo! Trago nele um vinho forte:
Meus beijos de volúpia e de maldade!
Trago dálias vermelhas no regaço...
São os dedos do sol quando te abraço,
Cravados no teu peito como lanças!
E do meu corpo os leves arabescos
Vão-te envolvendo em círculos dantescos
Felinamente, em voluptuosas danças...
A Inigualável
Ai, como eu te queria toda de violetas
E flébil de cetim...
Teus dedos longos, de marfim,
Que os sombreassem jóias pretas...
E tão febril e delicada
Que não pudesses dar um passo -
Sonhando estrelas, transtornada,
Com estampas de cor no regaço...
Queria-te nua e friorenta,
Aconchegando-te em zibelinas -
Sonolenta,
Ruiva de éteres e morfinas...
Ah! que as tuas nostalgias fossem guizos de prata -
Teus frenesis, lantejoulas;
E os ócios em que estiolas,
Luar que se desbarata...
Teus beijos, queria-os de tule,
Transparecendo carmim -
Os teus espasmos, de seda...
- Água fria e clara numa noite azul,
Água , devia ser o teu amor por mim...
O Erotismo o proibido e a transgressão
domingo, 17 de agosto de 2008
daqui a nada, deixares o chão desta casa
encostarei amorosamente os lábios ao teu copo
para sentir o sabor desse beijo que hoje não
daremos. E então, sim, poderei também eu
partir, sabendo que, afinal, o que tive da vida
foi mais, muito mais, do que mereci.
Maria do Rosário Pedreira
junto à erva agreste de outros dias. O sol
não te queima, não te fere os olhos ao meio-dia.
Soletramos o amor com a letra mais pequena de uma língua
acabada de inventar. Sabem as gaivotas. Sabe o mar.
Era uma vez. Era assim que te agasalhava a noite
e me enrolava nos teus olhos para encontrar
a luz. Não é com a memória que caminho.
As manhãs são de névoa como as camarinhas
que cresciam nas dunas. Com quem posso
agora falar de camarinhas? Saborear o gosto
das bagas e dos risos. Vamos apanhando conchas,
castelos, príncipes, borboletas. Vamos perdendo
o que encontramos. As mãos vazias. Os passos leves.
Os olhos crescem como a erva nas sandálias.
Rosa Alice Branco, Desfocados pelo vento, Quasi Edições, 2004
sábado, 16 de agosto de 2008
O que une a fidelidade à paixão é uma luz invisível
no centro de um rosto, filigranas, telas de uma memória
difícil. O que une a fidelidade à fidelidade da
paixão é o limite em que se adormece. Mas não
se desperta dessa luz. Se me prendes, eu fujo no
mar, corro nas falésias, nos perigos da morte e do
entardecer. Se eu te prendo, morro repentinamente
sem dizer toda a verdade sobre o que o mar oculta.
Francisco José Viegas, Desfocados Pelo Vento, Quasi Edições, 2004
como se fossem pássaros perdidos.
Não se vêem as asas nem os vultos
inumeráveis no trajecto, só
as formas que desenham, geométricas
aparições mentais, e a ilusão
das aves que, perdidas, se parecem
a conjuntos de ideias. Da miragem
em tensas conversões, o corpo emana
abstracta figura, erecta e fria
Luís Adriano Carlos, Invenção do Problema, Moraes Editores,1986
Quando chegou a Nova Iorque, Madonna avisou logo que vinha para "conquistar o mundo". Madonna nasceu com a própria cultura popular que a consagrou, afinal, ainda hoje.A história da música popular é também a história das suas relações, muitas vezes tensas, quase sempre ambíguas e perversas, com as instituições, comportamentos e valores dominantes. E, nesse aspecto, a criadora de Like a Virgin tem muito para contar.
Revista do JN
sexta-feira, 15 de agosto de 2008
Foi a vez de Há Lodo no Cais
em 1954. O genial Marlon
que também é Brando, amante
de pombos, martiriza-se até
à denuncia da tirania. Faz-se
pessoa gerando a solidariedade.
O herói da dureza,
da semidelinquência, é um homem
ferido, de algum modo traído
pela teia da vida.
Na juventude a cabeça sumptuosa
é escultura carnal. Na maturidade
de O Último Tango, o sedutor
de humor variável mata
a beleza num gesto borderline.
Isabel de Sá, Repetir o Poema, edições quasi, 2005


quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Como escreveu FREUD, em MAL-ESTAR NA CULTURA, « o homem não é um ser doce, com necessidade de amor, que na melhor das hipóteses apenas se defenderia se estivesse em risco de ser atacado, mas, pelo contrário, o homem tem precisamente entre as suas disposições pulsionais uma muito intensa inclinação para a agressão. E, por conseguinte, o próximo não é para ele apenas uma ajuda e um objecto sexual possível, mas também, uma tentação, a de satisfazer nele o seu desejo de agressão, a de explorar sem limites a sua força de trabalho, a de o utilizar sexualmente sem o seu consentimento, a de se apropriar do que ele possui, a de o humilhar, de lhe provocar dores, de o martirizar e de o matar».
quarta-feira, 13 de agosto de 2008
O CAFÉ E A LITERATURA
«O grão de café, o perfume de ambrósia!», exclamava no século XVII o poeta turco Belighi: desde o seu aparecimento, o café não mais deixou de ser cantado por escritores e poetas. Pelo seu sabor delicioso, mas também pelas propriedades estimulantes, propícias à criação, e pelas oportunidades de convívio e de debate que proporcionava nos estabelecimentos onde era servido. Em França, enquanto a Colette de La Maison de Claudine (1922) era a recordação dos pequenos-almoços rescendentes em família, os escritores preferiram evocar a atmosfera dos cafés, fosse ela corriqueira ou exótica.
Gérard de Nerval (Le Voyage en Orient, 1848-1851), Pierre Loti (Aziyadé, 1879), Hippolyte Taine (Voyage en Italie, 1914) e tantos outros enriqueceram os seus textos com belas descrições das suas viagens em que o café surge como uma das instituições fundamentais da arte de viver dos paises visitados. Em sentido inverso, escritores como Hemingway ou Henry Miller, que evocaram o extraordinário cadinho de artistas que foram certos cafés da capital francesa entre as duas guerras. Sobre os prazeres e virtudes da bebida, Balzac terá sido o mais prolífico, tanto no seu Traité des excitants modernes (1839) como em Eugénie Grandet (1833) ou Ursule Mirouet (1841). Mas as mais belas páginas alguma vez escritas sobre o café pertencem, sem dúvida, ao escritor palestiniano Mahmud Darwich, que, no início de Une mémoire pour l'oubli (1994), descreve - numa magnífica provocação à violência e à morte - o acto voluptuoso e tranquilo de preparar o seu café numa Beirute bombardeada.
Alain Stella, escritor
BREVE HISTÓRIA DO CAFÉ
Nem sempre se tem a percepção de a que ponto o café, aparecido no século XV, mudou o mundo. Se é bebido por milhões, depois de ter conquistado o planeta, se se tornou a segunda bebida consumida no mundo, depois da água ( o que é contestado pelos amantes do chá), é porque nos trouxe, e continua a trazer, extraordinários benefícios para o corpo e para o espírito e, acima de tudo, um admirável factor de convivialidade - do Japão aos Estados Unidos, passando pelo Médio Oriente e pela Europa, o café aquece a alma e aproxima as pessoas. Porque exige uma preparação, porque depois de servido é preciso esperar alguns momentos antes de ser bebido. O café não é, decididamente, uma dessas bebidas em lata que se consomem sm mesmo pensar no que se está a beber. Exige um pouco de atenção e tempo. Um tempo que, por todo o mundo, as pessoas gostam de partilhar. Em família, ao pequeno-almoço; nas tendas dos beduínos ou nos corredores dos escritórios; e, naturalmente nos cafés, o universo que lhe é próprio e onde acontecem os encontros, as trocas de ideias. O café é um mensageiro.
Alain Stella, escritor.









































