
sexta-feira, 25 de dezembro de 2009
A POÉTICA DO SUICÍDIO EM SYLVIA PLATH
OLMO
Conheço o fundo, diz ela. Cheguei lá com a minha raiz maior:
É disso que tu tens medo.
Mas eu não tenho medo: já lá estive.
É o mar o que houves em mim,
As suas insatisfações?
Ou a voz do nada que era a tua loucura?
O amor é uma sombra.
Como ficas prostrada e chorosa depois
Escuta: são os cascos dele: desapareceu como um cavalo.
Toda a noite vou galopar, assim, impetuosamente,
Até que a tua cabeça fique uma pedra e a tua almofada um pequeno monte de turfa,
Fazendo eco, fazendo eco.
Ou deverei eu trazer-te um som de venenos?
Agora é a chuva, este quase silêncio.
E este é o seu fruto: da cor metálica do arsénico.
Tenho sofrido a atrocidade dos crepúsculos.
Queimados até à raiz
Os filamentos vermelhos ardem, ficam espetados, mão de fios eléctricos.
Um vento tão violento
Não aguenta espectadores: tenho de gritar.
Também da lua ausente a piedade: havia de arrastar-me
Cruel, na sua esterilidade.
O seu esplendor ofusca-me. Ou talvez a tenha agarrado.
Vou deixá-la ir. Vou deixá-la ir
Diminuida e esvaziada, como após uma operação radical.
Como os teus sonhos maus me possuem e alimentam.
Sou habitada por um grito.
Noite após noite bate as asas
Procurando com as garras algo para amar.
Aterroriza-me esta coisa tenebrosa
Que dorme dentro de mim;
Todo o dia sinto o macio voltejar das suas penas, a sua malignidade.
As nuvens passam e dispersam-se.
Serão essas as faces do amor, esfumadas coisas que não se recuperam?
É por isto que perturbo o meu coração?
Sou incapaz de aprender mais.
O que é isto, este rosto
Tão assassino em seus tentáculos estranguladores?-
O seu ácido silvo de serpente.
Petrifica o desejo. Erros que isolam, essas falhas lentas
Que matam, e matam, e matam.
Ariel,tradução de Maria Fernanda Borges, Relógio D'Água, 1996
Conheço o fundo, diz ela. Cheguei lá com a minha raiz maior:
É disso que tu tens medo.
Mas eu não tenho medo: já lá estive.
É o mar o que houves em mim,
As suas insatisfações?
Ou a voz do nada que era a tua loucura?
O amor é uma sombra.
Como ficas prostrada e chorosa depois
Escuta: são os cascos dele: desapareceu como um cavalo.
Toda a noite vou galopar, assim, impetuosamente,
Até que a tua cabeça fique uma pedra e a tua almofada um pequeno monte de turfa,
Fazendo eco, fazendo eco.
Ou deverei eu trazer-te um som de venenos?
Agora é a chuva, este quase silêncio.
E este é o seu fruto: da cor metálica do arsénico.
Tenho sofrido a atrocidade dos crepúsculos.
Queimados até à raiz
Os filamentos vermelhos ardem, ficam espetados, mão de fios eléctricos.
Desfaço-me em bocados de caruma que voam em várias direcções.
Um vento tão violento
Não aguenta espectadores: tenho de gritar.
Também da lua ausente a piedade: havia de arrastar-me
Cruel, na sua esterilidade.
O seu esplendor ofusca-me. Ou talvez a tenha agarrado.
Vou deixá-la ir. Vou deixá-la ir
Diminuida e esvaziada, como após uma operação radical.
Como os teus sonhos maus me possuem e alimentam.
Sou habitada por um grito.
Noite após noite bate as asas
Procurando com as garras algo para amar.
Aterroriza-me esta coisa tenebrosa
Que dorme dentro de mim;
Todo o dia sinto o macio voltejar das suas penas, a sua malignidade.
As nuvens passam e dispersam-se.
Serão essas as faces do amor, esfumadas coisas que não se recuperam?
É por isto que perturbo o meu coração?
Sou incapaz de aprender mais.
O que é isto, este rosto
Tão assassino em seus tentáculos estranguladores?-
O seu ácido silvo de serpente.
Petrifica o desejo. Erros que isolam, essas falhas lentas
Que matam, e matam, e matam.
Ariel,tradução de Maria Fernanda Borges, Relógio D'Água, 1996
BOAS FESTAS E PROSPERIDADE
quinta-feira, 24 de dezembro de 2009
NÃO É PRECISO GRITAR
Exibição do filme UMA PEDRA NO BOLSO de JOAQUIM PINTO
20 ANOS DA MEDEIA FILMES E O CINEMA DE JOAQUIM PINTO
Cinema King - Lisboa - 20 de Dezembro
Exibição do filme Uma Pedra no Bolso de Joaquim Pinto - seguido de debate.
Cinema King - Lisboa - 20 de Dezembro
Presentes : Paulo Branco, Inês de Medeiros, Luís Miguel Cintra, Joaquim Pinto, Vasco, jovens cineastas como João Salaviza (Palma de Ouro no Festival de Cannes, com o filme Arena), Eduarda Chiote (autora do guião do filme - Uma Pedra no Bolso) e muito público interessado.
Poema de Manuel de Freitas
LONELY CHRISTMAS JOINT
Espero que me desculpes a banalidade
do enredo. As primas deitaram-se,
cansadas de povoar o mundo,
e os pais e tios procuram um calor
que não seja ainda a morte.
A Noémia, a avó e a irmã
deixaram entretanto de ser vistas.
Mas trocaram-se prendas, no intervalo
dos sorrisos, e abraços anuais
no intervalo das prendas. O frio, ao menos,
revelou-se coerente e natalício.
Fez durar um pouco mais o coração
refogado, numa adega sem saída.
É sempre assim: há quem se habitue
e há quem fume um charro,
à espera de nenhum poema. As diferenças
tácitas entre os mortos darão esta noite
muito que pensar a Herodes.
TERRA SEM COROA, teatro de vila real, Outubro de 2007
Espero que me desculpes a banalidade
do enredo. As primas deitaram-se,
cansadas de povoar o mundo,
e os pais e tios procuram um calor
que não seja ainda a morte.
A Noémia, a avó e a irmã
deixaram entretanto de ser vistas.
Mas trocaram-se prendas, no intervalo
dos sorrisos, e abraços anuais
no intervalo das prendas. O frio, ao menos,
revelou-se coerente e natalício.
Fez durar um pouco mais o coração
refogado, numa adega sem saída.
É sempre assim: há quem se habitue
e há quem fume um charro,
à espera de nenhum poema. As diferenças
tácitas entre os mortos darão esta noite
muito que pensar a Herodes.
TERRA SEM COROA, teatro de vila real, Outubro de 2007
AINDA A FEIRA LAICA - FÁBRICA BRAÇO DE PRATA - 19 DE DEZEMBRO
A tarde era fria, mas o calor humano, rodeado de livros aquecia todos os que trocaram centros comerciais e natalícios, pela visita à Fábrica Braço de Prata, num Sábado à hora do lanche. E cheirava bem. Preparativos para um jantar, noutra sala, e mesinhas repletas de livros a seduzir o olhar dos visitantes.
Manuel de Freitas e Inês Dias, no seu espaço dedicado à Editora Averno. Os livros no seu conjunto destacavam-se pela linha gráfica a que já nos habituamos. LINDOS de morrer.

Manuel de Freitas e Inês Dias, no seu espaço dedicado à Editora Averno. Os livros no seu conjunto destacavam-se pela linha gráfica a que já nos habituamos. LINDOS de morrer.
terça-feira, 15 de dezembro de 2009
15ª FEIRA LAICA - 19 E 20 DE DEZEMBRO
segunda-feira, 14 de dezembro de 2009
Esboço Poético Sobre a Pintura de Graça Martins
por Isabel de Sá
A rapariga idealiza infinitamente, os dedos em fios cinzentos, ondulantes na textura. Gaze, figuras nítidas, olhares claros sob o tempo, frágeis metamorfoses.
Meninos em gaze líquido, adolescentes belíssimos num isolamento algo expectante ou buscando seduzir na sua imobilidade. E toda a gaze é água ou nervura, ou fio de pele. Invisível fio que une corpos e corpos num desespero sem fim, onde tudo parece de uma imensa serenidade.
Figuras sonham de encontro ao abismo, o rosto frio, as pálpebras magoadas, o corpo de mármore. Isoladas, figuras feitas de esqueleto e dúbia concentração, dadas a solicitações interiores, deambulam, fixam-se em posições invulgares, num autismo perfeito. Algumas vivem dias seguidos envolvidas em lençois, como coladas às paredes.
Corpos fragmentados por vozes, ruídos dispersos, uterinos.
Que conivência tão forte os une há tanto cansados. Sob a música clara do esquecimento mãos torcem os próprios ossos. Uma hera germina em limitado espaço e a rapariga aparece em plena claridade; um tempo de infância não esclarecido, o corpo em luminosos vermes ou pequeníssimos farrapos, os cabelos - raízes em direcção à terra.
A rapariga desfaz o retrato, lírios como bichos...
Entre nervura e pólen, corpos intactos respiram luz. Ainda.
Ela vem do exterior, arrasta tumultos, ideias, um frágil ramo de árvore. A vida confusa, dividida.
Aquilo que é interior e nasce involuntariamente. Violetas deixadas em água, o desenho incompleto para sempre inútil.
Dizia: Tenho que organizar. Como um esquema. São fotografias. Catalogar. O tempo. Perco-me. Um pormenor, muitas vezes só um pormenor. Não sei como sair de tantos fios.
O instante poético abre caminhos, a fita de veludo prende uma chave. Máscaras de cal quase gesso de tão pouco móveis. Lábio de carmim. Objectos de infância e de morte.
Debruçava-se sobre a imensa folha - redemoinho impossível. A música. O insecto azul-violeta fixo de encontro à parede. A moldura doirada e negra. Um sinal fúnebre. A asa de veludo em relevos aquáticos; o tom insidiosamente devorado pela luz. A bola de cristal ainda na memória.
Texto publicado no JN, página de Cultura, Fevereiro de 1982
domingo, 13 de dezembro de 2009
SERPENTE - REVISTA DE CULTURA E ARTE
1ªedição com uma tiragem de 500 exemplares
esgotou no dia do lançamento - Setembro -1983
2ªedição 500 exemplares - Dezembro 1983
Também esgotada
Arranjo Gráfico - Graça Martins e Isabel de Sá
Administração: Filomena Cabral, Graça Martins
Helga Moreira, Isabel de Sá, Teresa Pinto da Silva,
Zulmira Carvalho Branco
esgotou no dia do lançamento - Setembro -1983
2ªedição 500 exemplares - Dezembro 1983
Também esgotada
Arranjo Gráfico - Graça Martins e Isabel de Sá
Administração: Filomena Cabral, Graça Martins
Helga Moreira, Isabel de Sá, Teresa Pinto da Silva,
Zulmira Carvalho Branco
PALAVRAS
HISTÓRIA LITERÁRIA DO PORTO através das suas publicações periódicas
quinta-feira, 10 de dezembro de 2009
terça-feira, 8 de dezembro de 2009
O LIVRO PELA CAPA
Visitem o blog dedicado ao amor pelos livros, isto é, pelo requinte gráfico das capas e autores. http://livropelacapa.blogspot.com
Uma abordagem ao gosto artístico das editoras portuguesas, que ao longo de décadas publicaram e continuam, felizmente, a publicar o que de melhor existe na cultura literária contemporânea.
Este blog foi criado pelo jovem João Borges, autor de poemas publicados nas revistas literárias CRÀSE e BRILHO NO ESCURO, vindas a público recentemente.
segunda-feira, 7 de dezembro de 2009
quinta-feira, 3 de dezembro de 2009
POEMA DE MANUEL DE FREITAS
DEVE SER A MORTE
Finalement, finalement
Il nous fallut bien du talent
Pour être vieux sans être adultes
JACQUES BREL
O desespero - percebes finalmente -
era uma energia, uma espécie de caminho
para quem não tinha passos. Os amigos
(se assim lhes podias chamar) encontravam-se
à volta de uma garrafa e injuriavam toda a noite
o amor de que em breve se fariam escravos.
Finalement, finalement
Il nous fallut bien du talent
Pour être vieux sans être adultes
JACQUES BREL
O desespero - percebes finalmente -
era uma energia, uma espécie de caminho
para quem não tinha passos. Os amigos
(se assim lhes podias chamar) encontravam-se
à volta de uma garrafa e injuriavam toda a noite
o amor de que em breve se fariam escravos.
Falavam de quase nada, os olhos parados
na música, o corpo disponível
para charros, risos e derrotas. Essas ruas,
sabes, nunca mais foram assim
o rastilho da descrença e o motim da desrazão.
Coisas de facto imberbes - navalhas
que fingiam a dolorosa perfeição da indiferença.
Pouco importa. Outros sinais cresceram,
fazendo desses rostos uma porta
fechada onde nem pela memória
esperas o milagre de encontrar alguém.
Deve ser a morte, o fim, isso mesmo
que julgavas esconjurar quando punhas flores
no gargalo verde e vigiado das garrafas.
A luz dos últimos bares tomba agora
sobre um corpo esquivo, mais sozinho,
que nem sequer nestas palavras acredita.
[SIC],Poesia inédita portuguesa. Assírio & Alvim
quarta-feira, 2 de dezembro de 2009
ATENCÃO - SÁBADO 5 DE DEZEMBRO -LANÇAMENTO DA REVISTA DE POESIA
BRILHO NO ESCURO Nº3 -INVERNO
MAUS HÁBITOS -22.30H.
LEITURA DE POEMAS POR
ANA LUISA AMARAL , ISAQUE FERREIRA
e MARIA BOCHICHIO
Neste número poemas de
Ana Luisa Amaral
Isabel de Sá
João Borges
José Luís Peixoto
Manuel de Freitas
Nuno Brito
http://brilhonoescuropoesia.blogspot.com

MAUS HÁBITOS -22.30H.
LEITURA DE POEMAS POR
ANA LUISA AMARAL , ISAQUE FERREIRA
e MARIA BOCHICHIO
Neste número poemas de
Ana Luisa Amaral
Isabel de Sá
João Borges
José Luís Peixoto
Manuel de Freitas
Nuno Brito
http://brilhonoescuropoesia.blogspot.com
domingo, 29 de novembro de 2009
Poema de João Borges
HÁ UM LUGAR CHAMADO MEDO
UM
Há um lugar chamado medo
A cidade, ao longe o ruído.
Ficámos sózinhos, peças de xadrez
na mancha escura do silêncio,
de um lado para o outro,
à espera.
Não me disseram que o tempo passaria
e tu também. A morte repetida
como se fosse a primeira vez.
No longo e doloroso abraço,
o sabor amargo da vida
tornou-se lei
DOIS
O sangue risca as páginas,
dizes que não queres nada.
As tuas mãos, na pressa
de quem não tem tempo a perder,
tomaram-me conta do corpo.
Depois, atiraste as cinzas
para a rua. Perderam-se na chuva.
TRÊS
À hora em que a chuva
faz das estradas espelho
e a cidade se duplica,
dentro de ti encontro
o calor que me salva da morte
e me prende outra vez ao teu corpo.
QUATRO
Por vezes não sei dizer-te
que sou o ar e as paredes
da casa onde te refugias.
Arremessei a minha vida
num abraço queimado pelo medo.
Procuro um lugar onde o tempo
perdoe a solidão.
Esperei pela noite na alameda,
a tua casa atrás de mim,
sombra a crescer de rua em rua.
a sublimar o medo.
CINCO
Em vão procurei o sabor da terra
para não morrer.
O teu amor é ácido.
Destroçado, assim me deito
na madrugada cheia de luz.
Não te lembras do café quase vazio
e nós, no lado escuro da vida?
SEIS
Na memória apaga-se o teu rosto
e o coração engole o fogo
que me consome.
Se eu corresse pela praia
e a terra se movesse
e eu fosse sugado
para o interior da vida
no seu furioso silêncio,
finalmente só e íntegro,
encontrar-me-ia.
cràse, revista de literatura emergente, nº0
Novembro de 2009, Lisboa
UM
Há um lugar chamado medo
A cidade, ao longe o ruído.
Ficámos sózinhos, peças de xadrez
na mancha escura do silêncio,
de um lado para o outro,
à espera.
Não me disseram que o tempo passaria
e tu também. A morte repetida
como se fosse a primeira vez.
No longo e doloroso abraço,
o sabor amargo da vida
tornou-se lei
DOIS
O sangue risca as páginas,
dizes que não queres nada.
As tuas mãos, na pressa
de quem não tem tempo a perder,
tomaram-me conta do corpo.
Depois, atiraste as cinzas
para a rua. Perderam-se na chuva.
TRÊS
À hora em que a chuva
faz das estradas espelho
e a cidade se duplica,
dentro de ti encontro
o calor que me salva da morte
e me prende outra vez ao teu corpo.
QUATRO
Por vezes não sei dizer-te
que sou o ar e as paredes
da casa onde te refugias.
Arremessei a minha vida
num abraço queimado pelo medo.
Procuro um lugar onde o tempo
perdoe a solidão.
Esperei pela noite na alameda,
a tua casa atrás de mim,
sombra a crescer de rua em rua.
a sublimar o medo.
CINCO
Em vão procurei o sabor da terra
para não morrer.
O teu amor é ácido.
Destroçado, assim me deito
na madrugada cheia de luz.
Não te lembras do café quase vazio
e nós, no lado escuro da vida?
SEIS
Na memória apaga-se o teu rosto
e o coração engole o fogo
que me consome.
Se eu corresse pela praia
e a terra se movesse
e eu fosse sugado
para o interior da vida
no seu furioso silêncio,
finalmente só e íntegro,
encontrar-me-ia.
cràse, revista de literatura emergente, nº0
Novembro de 2009, Lisboa
Poema de Rosa Alice Branco
MAPA ANATÓMICO
a Luís Miguel Nava
Para António Damásio estou debruçada à janela
do meu corpo. Posso contemplar os objectos da paisagem:
coração, pulmões, intestinos, músculos.
As vísceras são o meu cenário como um poema
de Nava e há sentimentos que me unem a cada uma
e a todas elas quando uma dor explode nas entranhas,
mas para Damásio sou apenas um espectador solidário
do outro lado do vidro. Nava sabia como um cenário
se despedaça entre as rochas, como a pele é a raíz
e a flor do sofrimento.
Desde a descoberta da perspectiva que estamos à janela
com um olho bovinamente parado. Dizem-me agora
que contemplamos um pátio interior, um rim? Não sentem
que o desespero tem uma face oculta para o sentirmos
e outra iluminada por um sol afundado no manto
dos intestinos? O cérebro de Damásio continua cativo
do teatro do seu corpo e eu devia ter metido citações.
Aprendi muito com ele, mas foi Nava quem me disse
que todos os caminhos vão dar à pele.
Soletrar o dia, obra poética, Quasi Edições, 2002
a Luís Miguel Nava
Para António Damásio estou debruçada à janela
do meu corpo. Posso contemplar os objectos da paisagem:
coração, pulmões, intestinos, músculos.
As vísceras são o meu cenário como um poema
de Nava e há sentimentos que me unem a cada uma
e a todas elas quando uma dor explode nas entranhas,
mas para Damásio sou apenas um espectador solidário
do outro lado do vidro. Nava sabia como um cenário
se despedaça entre as rochas, como a pele é a raíz
e a flor do sofrimento.
Desde a descoberta da perspectiva que estamos à janela
com um olho bovinamente parado. Dizem-me agora
que contemplamos um pátio interior, um rim? Não sentem
que o desespero tem uma face oculta para o sentirmos
e outra iluminada por um sol afundado no manto
dos intestinos? O cérebro de Damásio continua cativo
do teatro do seu corpo e eu devia ter metido citações.
Aprendi muito com ele, mas foi Nava quem me disse
que todos os caminhos vão dar à pele.
Soletrar o dia, obra poética, Quasi Edições, 2002
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