
segunda-feira, 22 de março de 2010
domingo, 21 de março de 2010
ISABEL DE SÁ
DENTRO DAS IMAGENS
Os poemas têm veneno na boca.
Na estrada da minha vida
plantei a árvore
sem saber quem era.
Em que parte do planeta
há mais ódio? A matéria
erosiva transforma o corpo
e não há regresso. Não
restará um monte de estrume.
Em todo o lado
parece que o mundo em desordem
pouco a pouco enlouqueceu
e os homens atam a corda
à espera que aconteça.
São infelizes
mas não o suficiente.
Não sabem dizer
por que se esquecem de amar.
RESUMO, a poesia em 2009, edição Assírio & Alvim, Lisboa, 2010
Os poemas têm veneno na boca.
Na estrada da minha vida
plantei a árvore
sem saber quem era.
Em que parte do planeta
há mais ódio? A matéria
erosiva transforma o corpo
e não há regresso. Não
restará um monte de estrume.
Em todo o lado
parece que o mundo em desordem
pouco a pouco enlouqueceu
e os homens atam a corda
à espera que aconteça.
São infelizes
mas não o suficiente.
Não sabem dizer
por que se esquecem de amar.
RESUMO, a poesia em 2009, edição Assírio & Alvim, Lisboa, 2010
DIA DA POESIA - 21 DE MARÇO
CANÇÃO DA MAIS ALTA TORRE
Que venha, que venha
O tempo da apanha.
Eu esperei tanto
Que tudo esqueci.
As raivas, o pranto
Acabam-se aqui.
E uma sede langue
Escurece-me o sangue.
Que venha, que venha
O tempo da apanha.
Como o descampado
De flores de abandono
Coberto, deixado
Ao incenso e ao sono,
Para voos atrozes
De moscas ferozes.
Que venha, que venha
O tempo da apanha.
Uma Época No Inferno, tradução de Mário Cesariny, Portugália Editora, 1960
Que venha, que venha
O tempo da apanha.
Eu esperei tanto
Que tudo esqueci.
As raivas, o pranto
Acabam-se aqui.
E uma sede langue
Escurece-me o sangue.
Que venha, que venha
O tempo da apanha.
Como o descampado
De flores de abandono
Coberto, deixado
Ao incenso e ao sono,
Para voos atrozes
De moscas ferozes.
Que venha, que venha
O tempo da apanha.
Uma Época No Inferno, tradução de Mário Cesariny, Portugália Editora, 1960
sexta-feira, 19 de março de 2010
DIA MUNDIAL DA POESIA - 21 DE MARÇO
terça-feira, 16 de março de 2010
12 de Março - Aula no ISEC - Lisboa
Sob a orientação da escritora e professora YVETTE CENTENO, foi dada uma aula sobre CAPAS, EDITORAS PORTUGUESAS CONTEMPORÂNEAS E GRAFISMOS
por JOÃO BORGES - autor dos blogs :
A aula decorreu com entusiasmo e agrado dos presentes.Ficaram fascinados com a beleza das capas expostas, as explicações detalhadas de João Borges, e a sensibilização ao mundo editorial português. Observaram que a participação de artistas plásticos e gráficos na área editorial era grande, e alguns dos artistas e poetas são actualmente de renome internacional.
Poesia 61 - VÁRIOS AUTORES - Capa de Manuel Baptista
segunda-feira, 15 de março de 2010
Poema de João Borges
O FELIZ ANIVERSÁRIO
I
Estou só frente à multidão.
Não tenho esperanças, nem sequer
um desejo a pedir. A trepidação
dos comboios lá em cima
faz-me estremecer o corpo cá em baixo,
mas por dentro
tudo está intacto.
Vejo as vamps e os homens de negócios,
falam ao telemóvel,
mas hoje, já toda a gente
me desejou feliz aniversário
e portanto não falo.
Dentro de momentos dará entrada
na linha 8 o comboio com destino
a Beja, efectua paragem
em todas as estações e apeadeiros
mas eu não vou tomá-lo.
Nem sequer levantar-me daqui
e voltar para casa. Por mais que ande,
por mais que fuja, o lugar, o meu,
é sempre o mesmo.
Anoitece.
Há alguns anos
estaria ansioso pela hora do jantar,
as prendas, contente porque era
mais um ano. Agora é menos um,
para o fim.
As luzes acendem-se na poeira preta
da cidade, e o vento sopra
entre os ossos deste esqueleto,
quase a levar-me com a poeira.
Este esqueleto
nada pensa de mim nem me deu
os parabéns. É fiel
à minha condição. Os carros também,
ao dar-me a noção de que estou
parado: passam nas duas vias,
e lateja a minha ferida.
Longe estão os amigos, as gargalhadas,
e até a noite de véspera,
em claro a olhar para trás.
Como sempre, levantei-me
a horas pouco civilizadas e olhei a minha vida
com a mais implacável indiferença.
João Borges
Gare do Oriente, Lisboa, 10 de Março, 2010
I
Estou só frente à multidão.
Não tenho esperanças, nem sequer
um desejo a pedir. A trepidação
dos comboios lá em cima
faz-me estremecer o corpo cá em baixo,
mas por dentro
tudo está intacto.
Vejo as vamps e os homens de negócios,
falam ao telemóvel,
mas hoje, já toda a gente
me desejou feliz aniversário
e portanto não falo.
Dentro de momentos dará entrada
na linha 8 o comboio com destino
a Beja, efectua paragem
em todas as estações e apeadeiros
mas eu não vou tomá-lo.
Nem sequer levantar-me daqui
e voltar para casa. Por mais que ande,
por mais que fuja, o lugar, o meu,
é sempre o mesmo.
Anoitece.
Há alguns anos
estaria ansioso pela hora do jantar,
as prendas, contente porque era
mais um ano. Agora é menos um,
para o fim.
As luzes acendem-se na poeira preta
da cidade, e o vento sopra
entre os ossos deste esqueleto,
quase a levar-me com a poeira.
Este esqueleto
nada pensa de mim nem me deu
os parabéns. É fiel
à minha condição. Os carros também,
ao dar-me a noção de que estou
parado: passam nas duas vias,
e lateja a minha ferida.
Longe estão os amigos, as gargalhadas,
e até a noite de véspera,
em claro a olhar para trás.
Como sempre, levantei-me
a horas pouco civilizadas e olhei a minha vida
com a mais implacável indiferença.
João Borges
Gare do Oriente, Lisboa, 10 de Março, 2010
segunda-feira, 8 de março de 2010
"NÃO SE NASCE MULHER : TORNA-SE" Simone de Beauvoir, escritora francesa (1908-1986)
8 de Março - o tal Dia da Mulher
Considerada desde sempre um homem falhado, ser ocasional, ser relativo, vivendo num mundo de homens em relação aos quais é definida por falta de qualidades, cumprindo as suas (deles) leis, voluntária ou involuntáriamente educada desde a mais tenra idade para a sua função de matriz, a mulher trava hoje uma irreversível luta de libertação, tanto mais difícil quanto não há nela a consciência de classe que torna solidários os negros, os proletários ou os judeus.
Com efeito, e usando as palavras da própria Simone de Beauvoir, «as mulheres vivem dispersas entre os homens, ligadas pelo habitat, pelo trabalho, pelos interesses económicos, pela condição social, a certos homens - pais ou maridos - mais intimamente do que às outras mulheres. Burguesas, são solidárias dos homens burgueses e não das mulheres proletárias; brancas, dos homens brancos e não das mulheres negras...»
Salvo raras excepções, só muito raramente a mulher tomou consciência de que a sua singularidade face ao homem não era um defeito mas tão- somente uma diferença.
Para essa tomada de consciência muito contribuiu a publicação em França de O Segundo Sexo, (Simone de Beauvoir) numa altura em que os movimentos feministas se limitavam a exigir o direito de voto ou a igualdade de salários, sem pôr em causa o problema muito mais profundo da condição feminina, que, para Simone de Beauvoir, não é inerente à natureza biológica da mulher, mas fundamentalmente imposta pela sociedade.
Portanto, exigir o reconhecimento da mulher como ser inteiro, responsável e livre é de tal modo revolucionário que põe em causa os próprios fundamentos da sociedade.
de O Segundo Sexo, Livraria Bertrand, 1975, tradução de Sérgio Milliet
sexta-feira, 5 de março de 2010
AS FEMINISTAS TRÊS MARIAS E O LIVRO POLÉMICO "NOVAS CARTAS PORTUGUESAS"
Em 1972, dois anos antes da Revolução dos Cravos e da independencia das colónias portuguesas no continente africano, publicou-se “As Novas Cartas Portuguesas”, pelas chamadas três Marias (as autoras, Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa); tal obra foi considerada uma ofensa ao regime e proibida; foi aberto um processo contra as autoras, ficaram famosas - foram proibidas de sair do país e não podiam ser referidas na imprensa, só se livrariam do processo após o 25 de Abril de 1974. Os textos foram considerados “imorais” e “pornográficos”, pois retratavam mulheres livres, que questionam a sua identidade e expressam o desejo de propor novas ideias sociais e religiosas; em tom de revelação, com várias vozes narrativas, a obra questiona os paradoxos possíveis na relação entre homens e mulheres.
Tal livro, composto por textos em prosa e em verso, pode ser considerado o introdutor do pensamento feminista na literatura portuguesa. As mulheres começam a falar sobre o seu corpo, sobre os prazeres e sofrimentos da sua relação carnal com os homens, e chocam a sociedade portuguesa. O livro é composto de fragmentos, o que expressa a própria concepção da mulher portuguesa, mas transmitindo uma só mensagem: a mulher também tem voz, e sabe falar.
Tal livro, composto por textos em prosa e em verso, pode ser considerado o introdutor do pensamento feminista na literatura portuguesa. As mulheres começam a falar sobre o seu corpo, sobre os prazeres e sofrimentos da sua relação carnal com os homens, e chocam a sociedade portuguesa. O livro é composto de fragmentos, o que expressa a própria concepção da mulher portuguesa, mas transmitindo uma só mensagem: a mulher também tem voz, e sabe falar.
As três escritoras assinam a obra em conjunto e jamais revelaram qual delas compôs cada fragmento. Vários estudos académicos foram realizados na tentativa de atribuir a autoria dos diversos textos, que compõem o livro, a partir da sua comparação com as obras literárias, posteriormente lançadas pelas autoras individualmente.
ANA DE CASTRO OSÓRIO - A PRIMEIRA FEMINISTA PORTUGUESA
Escritora, feminista e activista republicana, nasceu em 1872 e morreu em 1935. É considerada a fundadora da literatura infantil no nosso país. Escreveu alguns livros que foram utilizados como manuais escolares e publicou ainda uma obra marcante na sua época, a colecção Para as Crianças, que lhe ocupou perto de quatro décadas de trabalho.
O seu livro «As Mulheres Portuguesas» (1905) é uma colectânea de artigos fundamentais, sobre as principais questões femininas que nunca conheceu reedição, onde exorta as mulheres ao “trabalho e ao estudo”, que considera “passo definitivo para a libertação feminina” ,apelando para que as mulheres não façam do amor “o ideal único da existência”.
Ser feminista, diz, é “desejá-las criaturas de inteligência e de razão”.
Sobre a rapariga portuguesa da época é implacável e irónica: “não tem opiniões para não ser pedante, não lê para não ser doutora e não ver espavoridos os noivos”. Defende a igualdade de salários, “por igual trabalho, igual paga” e afirma que “nada mais justo, nada mais razoável, do que este caminhar seguro, embora lento, do espírito feminino para a sua autonomia.
quinta-feira, 4 de março de 2010
O MEU POETA PREFERIDO
Poema de JOAQUIM MANUEL MAGALHÃES
antes do Tsunami - UM TOLDO VERMELHO
OLHOS COR DE CHICOTE
Fiz uma casa com traves funestas
e a casa estava toda em fogo.
À hora da tarde quando o canto dos melros
e dos tentilhões começa a enlouquecer.
Por vezes a chama fugia da casa
à espera de viragem que não vinha.
A distância naufraga em soro branco,
o arbusto recolhe na falésia a profecia,
na carcuma onde a poalha não tem fim.
Torna-se ainda mais convulso
o remorso que tomba, ouvia-se
cada um dos soluços, pisados
por todos os que passavam.
Um nome ganha temor, a penumbra, o cipreste,
a crepitação das coisas que dizimam.
Um jorro negro é a sua frente.
E tu dizes-me: vais deixar
de ouvir as ondas, o verão não voltará,
podes esquecer e ser feliz.
Mas já é tarde. Não valia a pena
cada lágrima, a casa calcinada,
o bosque ao abandono, a geada no bebedouro,
o regresso de mais um sonho.
Em todos eles se liquefazem as árvores,
o torreão afogado do caminho, o curral,
o saque da fruta por larvas de uma grade.
E continua a arder no quarto
que rebenta.
Tudo se acumula na representação.
Assim um sismo
retira cidades do que foi cidade.
Então o fogo, cada uma das suas homilias,
corre pelo vazio veloz de todo o fogo.
No corpo desmantelado chamamos
à ignorância que de dentro nos mata
o destino, a casa arder,
a passageira ondulação final.
Incham os orgãos até à gangrena,
as mucosas apodrecem, os tendões
esmagam-se de encontro à terra
numa dança de cinza.
De vez em quando passam os cavalos,
vão pelo silêncio para o alto.
De cada vez os teus olhos pousam
na pradaria de silva e cana seca.
Passam os cavalos com o cavaleiro,
enredam arvoredos, o seu tropel sustém
tocas mineiras, muros derruídos, a tarde
uma canção em luta. Nada traz
nenhum aviso ao plaino ácido,
ao mundo sem açaime.
E chega o escuro
donde desaparecem os cavalos. A vigília
em ligadura, sufocações por trás do que não sabemos,
uma prag certa vez ouvida, incurável na recordação.
Líquidos que batem, molas que não agarram,
galhos donde evapora a seiva.
Uma casa arrasta para longe
do humano, a natureza traz-nos
ao que somos diante de coisa alguma.
Se eu tivesse uma máquina suspeita
que, de encontro ao pano da montanha
e do mar em seu redor, arrancasse
o que pelo sol fora abatido,
animais ominosos ouvir-se-iam de repente.
Assim, apenas em redor do meimendro
se debruçam os arcos rasteiros da arnica.
Tanto tempo os confundi com as azedas
pelo campo desarticulado.
Na cremação viscosa dos telhados,
no cerco dos olhos incapazes de seguir,
no alarme do verdete da fonte,
no túnel donde escorre a fuligem,
no perigo de passeios com cadastro
perdi todo o trevo desses lábios
que sabiam prender-se com os meus.
ALTA NOITE EM ALTA FRAGA, RELÓGIO D'ÁGUA, 2001
antes do Tsunami - UM TOLDO VERMELHO
OLHOS COR DE CHICOTE
Fiz uma casa com traves funestas
e a casa estava toda em fogo.
À hora da tarde quando o canto dos melros
e dos tentilhões começa a enlouquecer.
Por vezes a chama fugia da casa
à espera de viragem que não vinha.
A distância naufraga em soro branco,
o arbusto recolhe na falésia a profecia,
na carcuma onde a poalha não tem fim.
Torna-se ainda mais convulso
o remorso que tomba, ouvia-se
cada um dos soluços, pisados
por todos os que passavam.
Um nome ganha temor, a penumbra, o cipreste,
a crepitação das coisas que dizimam.
Um jorro negro é a sua frente.
E tu dizes-me: vais deixar
de ouvir as ondas, o verão não voltará,
podes esquecer e ser feliz.
Mas já é tarde. Não valia a pena
cada lágrima, a casa calcinada,
o bosque ao abandono, a geada no bebedouro,
o regresso de mais um sonho.
Em todos eles se liquefazem as árvores,
o torreão afogado do caminho, o curral,
o saque da fruta por larvas de uma grade.
E continua a arder no quarto
que rebenta.
Tudo se acumula na representação.
Assim um sismo
retira cidades do que foi cidade.
Então o fogo, cada uma das suas homilias,
corre pelo vazio veloz de todo o fogo.
No corpo desmantelado chamamos
à ignorância que de dentro nos mata
o destino, a casa arder,
a passageira ondulação final.
Incham os orgãos até à gangrena,
as mucosas apodrecem, os tendões
esmagam-se de encontro à terra
numa dança de cinza.
De vez em quando passam os cavalos,
vão pelo silêncio para o alto.
De cada vez os teus olhos pousam
na pradaria de silva e cana seca.
Passam os cavalos com o cavaleiro,
enredam arvoredos, o seu tropel sustém
tocas mineiras, muros derruídos, a tarde
uma canção em luta. Nada traz
nenhum aviso ao plaino ácido,
ao mundo sem açaime.
E chega o escuro
donde desaparecem os cavalos. A vigília
em ligadura, sufocações por trás do que não sabemos,
uma prag certa vez ouvida, incurável na recordação.
Líquidos que batem, molas que não agarram,
galhos donde evapora a seiva.
Uma casa arrasta para longe
do humano, a natureza traz-nos
ao que somos diante de coisa alguma.
Se eu tivesse uma máquina suspeita
que, de encontro ao pano da montanha
e do mar em seu redor, arrancasse
o que pelo sol fora abatido,
animais ominosos ouvir-se-iam de repente.
Assim, apenas em redor do meimendro
se debruçam os arcos rasteiros da arnica.
Tanto tempo os confundi com as azedas
pelo campo desarticulado.
Na cremação viscosa dos telhados,
no cerco dos olhos incapazes de seguir,
no alarme do verdete da fonte,
no túnel donde escorre a fuligem,
no perigo de passeios com cadastro
perdi todo o trevo desses lábios
que sabiam prender-se com os meus.
ALTA NOITE EM ALTA FRAGA, RELÓGIO D'ÁGUA, 2001
quarta-feira, 3 de março de 2010
A OBRA, ANTES DE TUDO, PERTENCE AO AUTOR.
OS LEITORES DO JOAQUIM MANUEL MAGALHÃES PODEM GOSTAR OU NÃO DO ÚLTIMO LIVRO - UM TOLDO VERMELHO
MAS O DIREITO A RASGAR, DESTRUIR, MODIFICAR, TSUNAMIZAR -É UM DIREITO DO POETA.
Como dizia o pintor KLEIN "Se pintasse o que os outros percebem e gostam, aborrecia-me"
terça-feira, 2 de março de 2010
segunda-feira, 1 de março de 2010
DREAM BROTHER MY KILLER MY LOVER - Acrílico s/tela -120x80cm, 2010
Este quadro vai estar em exposição na Galeria ARTES SOLAR DE STO. ANTÓNIO - Rua do Rosário - CCB - Porto
6 DE MARÇO - SÁBADO - INAUGURAÇÕES SIMULTÂNEAS -
MIGUEL BOMBARDA
Poema de ÁLVARO DE CAMPOS
O que há em mim é sobretudo cansaço
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto alguém.
Essas coisas todas -
Essas e o que faz falta nelas eternamente -;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.
Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada -
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...
E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço.
Íssimo, íssimo. íssimo,
Cansaço...
sábado, 20 de fevereiro de 2010
Poema de DIEGO DONCEL
IN MEMORIAM OU A MORTE DO OUTRO
Abraçámo-nos como dois animais
indefesos à mercê do destino
com a alma partida de dor. E chorámos
sobre os nossos ombros esta pobre aventura
da vida à qual alguém, num mau sonho,
nos condena. Sentimos,
quando só saíam lágrimas da tua boca
e da minha, o fracasso de ser homens
e esse inútil consolo de partilhar
toda a nossa desgraça.
Estava a sala escura, tal qual o mundo,
árido o ar e sem alento como o nosso coração,
junto de nós não havia ninguém,
apenas o corpo de um homem face
à dura solidão da morte, e ao fundo vozes
de homens vivos que desprezam viver.
Ao longo das horas e ao longo dos seres
a noite foi vertendo entre nós a sua cinza,
o seu demónio e o seu nada entre os que velámos
aquele corpo defunto. Num canto uma mulher
gritava em vão a um deus que não existia.
E era a dor quem falava
ao estar abandonada diante da solidão,
ao sentir em seu redor o mundo desolado,
ao ver como o tempo arrebatava tudo e o homem
nada é neste cruel castigo da vida.
Como é absurdo amar diante da morte.
E queimaram-nos ainda mais os olhos
durante toda a noite aquelas súplicas
de desespero, sabermos
que nenhum tempo nem nenhum mundo
acolheria aquele corpo,
que depois da morte não há mais além
a não ser a hostil razão da matéria.
O pó nesse homem voltava ao pó
e ao nada o tempo, tal como a consciência
que até há pouco existiu.
E gelou-se-nos o sangue ao contemplar
que essas mãos sem vida tantas vezes
pegaram nas nossas, e essa boca que te beijou
e a mim falava de amizade
agora está parada e muda respirando o silêncio,
e esses olhos fechados, porque só na escuridão
se vê o vazio.
E pensámos, com as mãos tapando-nos
o rosto de terror, que esse pó,
esse nada, essa falta de consciência
era o futuro do nosso ser e o homem
um extravio da natureza
que a natureza ao fim negava.
E que esse dia pouco a pouco se anunciava
limpo de ouro e de azul sobre a cal
do pátio, que fortalecia de luz o limoeiro,
podia ser o dia da nossa morte.
Tradução de Joaquim Manuel Magalhães, Trípticos Espanhois, 2º, Relógio D'Água, 2000, Lisboa
Abraçámo-nos como dois animais
indefesos à mercê do destino
com a alma partida de dor. E chorámos
sobre os nossos ombros esta pobre aventura
da vida à qual alguém, num mau sonho,
nos condena. Sentimos,
quando só saíam lágrimas da tua boca
e da minha, o fracasso de ser homens
e esse inútil consolo de partilhar
toda a nossa desgraça.
Estava a sala escura, tal qual o mundo,
árido o ar e sem alento como o nosso coração,
junto de nós não havia ninguém,
apenas o corpo de um homem face
à dura solidão da morte, e ao fundo vozes
de homens vivos que desprezam viver.
Ao longo das horas e ao longo dos seres
a noite foi vertendo entre nós a sua cinza,
o seu demónio e o seu nada entre os que velámos
aquele corpo defunto. Num canto uma mulher
gritava em vão a um deus que não existia.
E era a dor quem falava
ao estar abandonada diante da solidão,
ao sentir em seu redor o mundo desolado,
ao ver como o tempo arrebatava tudo e o homem
nada é neste cruel castigo da vida.
Como é absurdo amar diante da morte.
E queimaram-nos ainda mais os olhos
durante toda a noite aquelas súplicas
de desespero, sabermos
que nenhum tempo nem nenhum mundo
acolheria aquele corpo,
que depois da morte não há mais além
a não ser a hostil razão da matéria.
O pó nesse homem voltava ao pó
e ao nada o tempo, tal como a consciência
que até há pouco existiu.
E gelou-se-nos o sangue ao contemplar
que essas mãos sem vida tantas vezes
pegaram nas nossas, e essa boca que te beijou
e a mim falava de amizade
agora está parada e muda respirando o silêncio,
e esses olhos fechados, porque só na escuridão
se vê o vazio.
E pensámos, com as mãos tapando-nos
o rosto de terror, que esse pó,
esse nada, essa falta de consciência
era o futuro do nosso ser e o homem
um extravio da natureza
que a natureza ao fim negava.
E que esse dia pouco a pouco se anunciava
limpo de ouro e de azul sobre a cal
do pátio, que fortalecia de luz o limoeiro,
podia ser o dia da nossa morte.
Tradução de Joaquim Manuel Magalhães, Trípticos Espanhois, 2º, Relógio D'Água, 2000, Lisboa
quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010
Poema de DIEGO DONCEL
A PRESENÇA DA ANGÚSTIA
1
Tal como caem os dias assim sobre esta terra
está a cair a angústia sobre o meu coração.
E cheios de velhice ficam os campos,
e a vida solitária e escura
como essas nuvens mortas que atravessam
o céu e às quais o tempo vai enchendo
de pó e de sombras nesta tarde de outono.
Tudo tem o seu fim e o seu destino escrito obscuramente.
E no mundo do homem que vivo
na mesma que no mundo humilde da terra
marcados vão os seres pela vida
ensinando-se a morrer. Bebem fogo de amor
noutra carne enferma, gozam a delícia
quando esquecem o seu mal, geram sonho de deuses
e nenhum pensamento os consola.
O terror é a morte e também este universo
de existências que vivem junto de mim com o seu mistério.
A terra, os pássaros, o rio, o homem
que via afadigar-se na luz foram
parte da minha alma, um vivo desejo
de unidade com o mundo
o qual com a sua presença purificava o meu íntimo.
Mas hoje, que é ontem e que eu não via,
a terra está árida de sol
debaixo das nuvens, os pássaros mostram o seu vasto
desalento nos altos ramos
com folhagens de cinza, o rio pedregoso volta
a dar-me o seu gosto de morte entre os juncos
e o homem, como eu, afundou-se
entre as sombras do medo e da loucura.
E não me basta ignorar, esquecer-me
de mim e do mundo quando ao destino
nada esquece, quando viver é cruel
e não sagrado. E sinto terror de mim
por existir, por me ver respirar, por contemplar
a minha miséria como um rumor mais do que vive.
Por ser o fruto
de uma natureza fatal.
O que vejo junto do meu corpo
é apenas desolação, uma desolação que sofre.
Há montes em solidão, e uma luz
que dá pobreza, e seres e coisas
que vivem marcados por um capricho celeste.
2
Tudo está só no meio do mundo
e nele só há formas sem sentido
a que dá alento a respiração da morte.
Agora vejo fúnebres no meu olhar
os bosques nos quais um dia
pus a descansar o meu coração,
e o que respiro perde-se
no ar do mundo sem que nada
os una.
Lá no alto o céu
agoniza a sua luz no lugar vazio
dos deuses e a humidade
das primeiras estrelas vai caindo
na minha alma como caem as ruínas
sobre o pó de um sonho.
Com os olhos queimados e humildes
olho entardecer o mar
e vejo como o lodaçal gelado das nuvens
devora o ouro da água e a tormenta
traz pastos e espaços calcinados à espuma
do meu coração.
Há algo velho em mim
que está velho no mundo, que vai apagando
o meu rosto com o musgo do cansaço,
que faz tremer as minhas mãos
debaixo do vazio celeste e pouco a pouco à vida
a vai enchendo de sal. Debaixo das sombras sinto apenas
náusea e terror de mim pois já não sou outra coisa
senão um animal devorado pelo tempo,
senão o lugar onde um homem e a sua razão
e os seus sonhos fracassam.
(...)
Tradução de Joaquim Manuel Magalhães, Trípticos Espanhois, 2º, RelógioD'Água, 2000, Lisboa
1
Tal como caem os dias assim sobre esta terra
está a cair a angústia sobre o meu coração.
E cheios de velhice ficam os campos,
e a vida solitária e escura
como essas nuvens mortas que atravessam
o céu e às quais o tempo vai enchendo
de pó e de sombras nesta tarde de outono.
Tudo tem o seu fim e o seu destino escrito obscuramente.
E no mundo do homem que vivo
na mesma que no mundo humilde da terra
marcados vão os seres pela vida
ensinando-se a morrer. Bebem fogo de amor
noutra carne enferma, gozam a delícia
quando esquecem o seu mal, geram sonho de deuses
e nenhum pensamento os consola.
O terror é a morte e também este universo
de existências que vivem junto de mim com o seu mistério.
A terra, os pássaros, o rio, o homem
que via afadigar-se na luz foram
parte da minha alma, um vivo desejo
de unidade com o mundo
o qual com a sua presença purificava o meu íntimo.
Mas hoje, que é ontem e que eu não via,
a terra está árida de sol
debaixo das nuvens, os pássaros mostram o seu vasto
desalento nos altos ramos
com folhagens de cinza, o rio pedregoso volta
a dar-me o seu gosto de morte entre os juncos
e o homem, como eu, afundou-se
entre as sombras do medo e da loucura.
E não me basta ignorar, esquecer-me
de mim e do mundo quando ao destino
nada esquece, quando viver é cruel
e não sagrado. E sinto terror de mim
por existir, por me ver respirar, por contemplar
a minha miséria como um rumor mais do que vive.
Por ser o fruto
de uma natureza fatal.
O que vejo junto do meu corpo
é apenas desolação, uma desolação que sofre.
Há montes em solidão, e uma luz
que dá pobreza, e seres e coisas
que vivem marcados por um capricho celeste.
2
Tudo está só no meio do mundo
e nele só há formas sem sentido
a que dá alento a respiração da morte.
Agora vejo fúnebres no meu olhar
os bosques nos quais um dia
pus a descansar o meu coração,
e o que respiro perde-se
no ar do mundo sem que nada
os una.
Lá no alto o céu
agoniza a sua luz no lugar vazio
dos deuses e a humidade
das primeiras estrelas vai caindo
na minha alma como caem as ruínas
sobre o pó de um sonho.
Com os olhos queimados e humildes
olho entardecer o mar
e vejo como o lodaçal gelado das nuvens
devora o ouro da água e a tormenta
traz pastos e espaços calcinados à espuma
do meu coração.
Há algo velho em mim
que está velho no mundo, que vai apagando
o meu rosto com o musgo do cansaço,
que faz tremer as minhas mãos
debaixo do vazio celeste e pouco a pouco à vida
a vai enchendo de sal. Debaixo das sombras sinto apenas
náusea e terror de mim pois já não sou outra coisa
senão um animal devorado pelo tempo,
senão o lugar onde um homem e a sua razão
e os seus sonhos fracassam.
(...)
Tradução de Joaquim Manuel Magalhães, Trípticos Espanhois, 2º, RelógioD'Água, 2000, Lisboa
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