
segunda-feira, 11 de agosto de 2008
JOAQUIM MANUEL MAGALHÃES
Quando o visitante, o inesperado rapaz
vindo duma noite distante, partir, partiu,
quem vai lembrar o pranto, o rasgão
da morte, o sangue correndo?
Eco de passos que não houve,
acordou a clara água das raízes
nuns dedos perdidos.
Ele, o despedido, aquele em quem ficamos
cantando os largos claros da noite,
os prédios encobertos de chuva imaginária.
Quem era, quem é? Foi um imprevisto
anúncio de pugna e foz lacustre,
de cardo matinal onde o amor corria.
O terror , rapaz rápido,
da tua sedução nessa despedida.
O visitante sai, saiu, virá um dia
preso do tempo que se rejeitou,
a voz fria, o encanto do desperdício.
a água foge nos seus dedos, falamos-lhe.
Pomos a boca sobre a fria superfície
da sua pele onde bate o sol,
um canteiro incendiado de brandura.
Uma coragem cresce debruçada
para os seus olhos salinos contra nós.
Tem um sorriso, uma camisa aberta,
o peito um arco de respiração.
Lentamente afasta-se. Já não segura
o nosso despeito nem o nosso acordo.
Para esquecê-lo, nenhuma noite bastará.
A fonte secou, o caminho que seguimos foi devorado.
Na manhã os pássaros começam a sangrar.
Consequência do Lugar, Relógio d'água, 2001
Aqui fica a resposta a uma pergunta feita ao poeta numa entrevista, sobre a reunião de oito livros no volume CONSEQUÊNCIA DO LUGAR.
sábado, 9 de agosto de 2008
POESIA E VERSO LIVRE: ABOLIR AS VELHAS FORMAS
Em Baudelaire (1821-1867, que define o poder encantatório das palavras e se dedica a decifrar, através das correspondências, o mistério da criação, encontram Verlaine, Rimbaud e Mallarmé um precursor. Este último é o autor de uma definição que passa a ser o credo de muitos poetas: " A Poesia é a expressão, pela linguagem humana reconduzida ao seu ritmo essencial, do sentido misterioso dos aspectos da existência : por isso ela confere autenticidade à nossa estada e constitui a única tarefa espiritual."
A fórmula do verso livre dispensa a contagem das sílabas. O seu número e repartição são livremente fixados em função da respiração ou da busca de musicalidade. A questão da sua paternidade é levantada um ano depois da afirmação de um simbolismo na literatura (ver manifesto). Gustave kahn (1859-1936) assina, nos seus Palais nomades (1887), uma primeira certidão de reconhecimento, certidão que confirma dez anos depois, no "Prefácio" aos seus Premiers poèmes. Mas o director da revista la vogue não podia ignorar os poemas de Rimbaud, nomeadamente "Marinha" e "Movimento", que este enviara para publicação em 1886, nem os Derniers vers de Jules Laforgue (1860-1887) e as traduções que este fez de As Folhas de Erva, do poeta americano Walt Whitman (1819-1892). Paul Valéry (1871-1945), muitos anos depois da "deliciosa emancipação" saudada pelo seu mestre Mallarmé, irá restabelecer, com La Jeune Parque (1917), uma ordem prosódica rigorosa.
Séverine Jouve, jornalista e escritora
EROS
"É preciso reinventar o amor" (Rimbaud)
"O amor nunca se misturou tanto com acrimónia, fel, desavenças e remorsos como na época do simbolismo", sublinha Ernest Raynaud (1864-1936) em La Mélée symboliste. Entre a pura fruição sensual, pela qual Mallarmé pretende encontrar "o pesado sono sem sonhos" e esse furor novo de castidade que leva os poetas a só quererem amar em imaginação, manifesta-se a partilha indecisa da alma e do corpo. Querendo responder a Rimbaud ("É preciso reinventar o amor"), o simbolismo irá constantemente espiritualizar a carne ou materializar o espírito. A androginia é uma das formas deste erotismo perverso.
"Efebo de castidade assassina", a princesa d'Este de Le Vice suprême, de Péladan (1884), é uma das heroínas ambíguas em cujas mãos o homem se transforma em instrumento submisso. O austríaco Sacher-Masoch (1836-1895), autor de A Vénus das Peles (1870), ilustra bem esta nova forma de amor a que o alienista Krafft-Ebbing viria a chamar"masoquismo". (Psychopathia sexualis, 1886). A luxúria e a morte sobrepõem-se. Ambivalência de Eros e Tanatos, sucessivamente encarnada por Salomé, Judite (ver Klimt) ou Cleópatra, tema recorrente na pintura (Munch).
Séverine Jouve, jornalista e escritora
DECADÊNCIA
"Os grandes bárbaros brancos" (Verlaine)
"O poeta de As Flores do Mal gostava daquilo a que impropriamente se chama o estilo da decadência, e que outra coisa não é senão a arte que atinge aquele ponto de maturidade extrema que as civilizações que envelhecem determinam nos seus sóis oblíquos." No seu prefácio (1868) a As Flores do Mal, Téophile Gautier (1811-1872) estabelece a relação entre decadência histórica e zénite poético. No mesmo sentido, "Langor" de Verlaine (1884) celebra o apogeu de um estilo requintado.
Quer se considere este fenómeno literário como uma primeira manifestação do simbolismo (o aparecimento da revista Le Decadent de Anatole Baju é, aliás, contemporâneo do manifesto de Móreas), quer se tente distingui-lo dele, a decadência define-se por um estado de espírito impregnado de pessimismo e por uma escrita mais rebuscada , em que abundam as palavras raras, os neologismos, e que recorre a perversas metáforas e a uma sintaxe complicada.
Este estilo impõe-se num romance, À rebours, em que Huysmans traça o retrato inesquecível do duque Jean Floressas des Esseintes, arquétipo do esteta decadente, dandy neurótico que prefere a arte à vida. A pintura participa activamente na criação destas atmosferas insalubres. Cronista dos vícios e da corrupção da sua época, Jean Lorrain (1855-1906), nas suas próprias palavras eterómano e "enfilantropo", escreve Monsieur de Phocas (1900), romance de clima deletério, percorrido por descrições de obras de Moreau, Ensor ou Khnopff.
Séverine Jouve, jornalista e escritora.
DANDISMO E ELITISMO
"Só nos temos a nós mesmos"Khnopff (pintor simbolista)
Outrora celebrado por Barbey d'Aurevilly e Baudelaire, o dandismo é uma atitude muito apreciada nos meios artísticos dos finais do século XIX. Copiando os antepassados românticos, jovens literatos como Rodenbach e Moréas afirmam a sua diferença pelo culto cuidado da aparência e da conduta. Este narcisismo, ilustrado por Oscar Wilde (Retrato de Dorian Gray) e pela divisa de Khnopff (só nos temos a nós mesmos), é reforçado pelo sentimento de pertencer a uma elite. Culto da distinção, encarnado pelo conde Robert de Montesquiou (1855-1921), modelo da personagem de Des Esseintes (ver Huysmans), o dandismo fim-de-século é também a afirmação de uma inadaptação ao mundo que conduz, na sua expressão literária, a trágica reclusão voluntária, um culto do raro e do artificial que corteja a monstruosidade e o sadismo. A época vê nascer as novas figuras do snob e do esteta. Preocupações mais concretas estão por vezes subjacentes ao elitismo: perante a "arte oclocrática" propagada em França por dois pletóricos salões anuais, Péladan opta por acolher as obras de uma "artisteia" rigorosamente escolhida. Em contraste com o desejo de publicidade, espíritos exigentes fazem gala da sua indiferença para com a multidão. Ao defender, desde 1862, uma poesia deliberadamente hermética à vulgaridade ("Heresias artísticas. A Arte para todos"). Mallarmé faz desta o último refúgio das almas nobres iniciadas e o santuário da religião da arte.
Laurent Houssais, historiador de arte.
sexta-feira, 8 de agosto de 2008
Longamente A Madrugada
Aqui me levantei. Aqui me deito.
Alguém anda em círculos,
o meu nome impõe-se.
Longamente a madrugada.
Desconhecidos um do outro
chegamos ao mesmo lugar.
De mim terias o corpo,
os lugares e o desejo.
Lentamente a madrugada e a luz dos teus olhos.
Um Corpo Transparente
Se me dissessem da existência da invisibilidade
eu ficaria interessado.
Nada mais prático do que um corpo transparente.
A minha voz irrompe e sinto que nada sei sobre mim.
Aqueço-me na respiração do outro.

Desenho e Poema de
valter hugo mãe
poema das coisas aladas no coração da minha irmã flor
as coisas aladas ensinam o chão. explicam-lhe quanto há entre terra e céu, o caminho livre do voo, a vista elevada de deus. eu vejo anjos e os anjos são das coisas aladas os sonhos mais completos. erguem-se braçados de asas a educar o vento, percursos de sopro que se abrem nas dimensões, e luzem nas nossas cabeças como homens enfim pássaros. como se as árvores pudessem ser casas nossas e nada nos acordasse na força do frio ou da chuva. como se nos cumprimentássemos em pleno ar, seres tão leves atarefados com mais nada. seríamos só pulmões cheios, máquinas de pairar, alegres imprecisões ao alto.
livro de maldições, objecto cardíaco, 2006
Só o lume dos teus beijos rompe
a treva onde a solidão nos mata.
Enrolamos a vida no escuro,
na semente de um amor atribulado.
Conhecemos o ritmo e a sede,
a convulsão do desamparo.
No sentido do corpo, no acerto
desce a força pelos braços
na violenta festa do prazer.
Tudo o que disseste
no desaforo da paixão
só podia incendiar a vida inteira
e encher de esperança o universo.
Repetir O Poema, edições Quasi,2005
ANDROGINIA
"Masculino-feminino: categorias demasiado grosseiras, e também demasiado simplistas, para poderem satisfazer um fim- de-século atormentado por desejos túrbidos. A rejeição da moral tradicional, passando pela indiferenciação sexual e pelas metamorfoses da imagem da mulher, encontram expressão numa figura legitimada pela tradição estética: o andrógino. Tanto quanto obceca a pintura, em que impera a ambiguidade sexual, este "sexo artístico por excelência"
(Praz, 1977), obceca a literatura da época, do Monsieur Vénus de Rachilde (1889) à Morte em Veneza de Thomas Mann (1912), passando por Le Désir et la poursuite du tout de Frederick Rolfe (1911) e Le Martyre de saint Sébastien de D'Annunzio (1911). Além da carga claramente fantástica, o andrógino, ao remeter para o mito platónico das origens, representa a procura de uma unidade inacessível, o sonho de uma reconciliação entre o paganismo e cristianismo, entre a idealização do ser amado e os imperativos de Eros."
Texto de François Vergne, professor na Universidade de Paris III - Sorbonne Nouvelle.
quinta-feira, 7 de agosto de 2008

´
O rei azteca Moctezuma tomava várias chávenas de chocolate antes de ir honrar as mulheres do seu gineceu. Parece, contudo, que o efeito afrodisíaco da bebida vinha não tanto do cacau quanto das especiarias (pimenta, pimento) que então continha. Na Europa, ainda que estas tenham sido substituídas pela baunilha e pela canela no século XVIII, as favoritas dos reis ainda acreditavam nessa virtude do chocolate e abusavam dele para estimular, ou ofereciam-no aos amantes para lhes permitir melhorar o desempenho. Quanto ao Marquês de Sade, foi preso por ter envenenado algumas jovens com pastilhas de chocolate recheadas com cantárida!
Nenhum trabalho científico moderno conseguiu ainda mostrar que os componentes do chocolate (cacau e açucar) são estimulantes sexuais. Tem, sem dúvida, um efeito tónico, antidepressivo e euforizante, mas não é o bastante para se poder falar de virtudes afrodisíacas. No nosso imaginário, no entanto, o CHOCOLATE está sempre ligado ao AMOR.
Autores deste texto: Katherine Khodorowsky (estilista gastronómica) e Hervé Robert (médico nutricionista)
terça-feira, 5 de agosto de 2008

Poema de valter hugo mãe
somos uma árvore nem sempre pensada. vimos uns dos outros como se fossemos terra uns dos outros, terra e sangue, ágil sobre o tempo por instinto e uma certa paixão. somos uma árvore nem sempre erguida. temo-nos uns aos outros como causas e efeitos em busca dos caminhos e uma certa paixão. somos uma árvore nem sempre razoável. magoamo-nos uns aos outros como necessitados de coisas más sem grandes razões e de uma certa paixão

segunda-feira, 4 de agosto de 2008
Isabel de Sá
Podíamos Ser O Mesmo Corpo
Se em vez de te ver eu te tivesse, podíamos ser o mesmo corpo e repetir esse momento para sempre. Queimá-lo na pele comum, ardê-lo lentamente.
Podemos ficar. Para sempre.
A forma como os teus cabelos caem sobre o rosto, noites passam em que não sei senão de ti.
Há o desejo que não acaba, o círculo fecha-se.
Magnetismo, euforia, explosão. Em ti desfoca-se a realidade. Pergunto-me como será o interior de uma onda, com toda a força, água, rebentação.
Na longa estrada surgirás entre a noite indefinida. O teu corpo brilhará no alcatrão. Então saberei onde explodes. A tua beleza é violenta. Quero beber-te o corpo.
João Borges
domingo, 3 de agosto de 2008

Louise Bourgeois
A agulha é usada para reparar o estragado. É um grito contra o esquecimento."
De acordo com a sua biografia, a família de Louise Bourgeois tinha uma oficina de restauro de tapeçarias antigas na cidade francesa de Choisy-le- Roi. Os pais de Louise encarregavam-na de desenhar esboços das partes que faltavam nos texteis e de criar cartões para o seu conserto posterior. Bourgeois estudou matemática na Sorbonne. Na década de 30 , frequentou várias escolas de Arte, foi aluna de Léger e mudou-se para Nova Iorque em 1938. Um dos seus primeiros trabalhos foi Femmes-Maison ( Mulheres-Casa), figuras femininas cujos corpos consistiam parcialmente numa casa, numa crítica ao estatuto social e doméstico das mulheres.
Nos anos 60, levou o seu tema doméstico um pouco mais longe com Lairs ( Tocas): formas labirínticas, espirais, que se abrem para um espaço interior oco.
A maior parte das formas sexualizadas no trabalho de Bourgeois não são claramente "masculinas" ou "femininas.
Em finais dos anos 70, consolidou a sua posição na cena artística de Nova Iorque.
Só em 1982, já com 71 anos , o museu de Arte Moderna de Nova Iorque realizou a primeira grande exposição retrospectiva do seu trabalho.
Afinal todo o trabalho autobiográfico de Louise Boourgeois, as suas Cells (Celas), as suas Spiders ( Aranhas), todo o potencial deste trabalho, que fornece ao observador um ecrã de projecção das suas próprias construções de memória, foi e será como obra de uma mulher, sempre de aceitação difícil, por uma maioria que não quer ver. Prefere viver adormecida.


















