
domingo, 17 de agosto de 2008
daqui a nada, deixares o chão desta casa
encostarei amorosamente os lábios ao teu copo
para sentir o sabor desse beijo que hoje não
daremos. E então, sim, poderei também eu
partir, sabendo que, afinal, o que tive da vida
foi mais, muito mais, do que mereci.
Maria do Rosário Pedreira
junto à erva agreste de outros dias. O sol
não te queima, não te fere os olhos ao meio-dia.
Soletramos o amor com a letra mais pequena de uma língua
acabada de inventar. Sabem as gaivotas. Sabe o mar.
Era uma vez. Era assim que te agasalhava a noite
e me enrolava nos teus olhos para encontrar
a luz. Não é com a memória que caminho.
As manhãs são de névoa como as camarinhas
que cresciam nas dunas. Com quem posso
agora falar de camarinhas? Saborear o gosto
das bagas e dos risos. Vamos apanhando conchas,
castelos, príncipes, borboletas. Vamos perdendo
o que encontramos. As mãos vazias. Os passos leves.
Os olhos crescem como a erva nas sandálias.
Rosa Alice Branco, Desfocados pelo vento, Quasi Edições, 2004
sábado, 16 de agosto de 2008
O que une a fidelidade à paixão é uma luz invisível
no centro de um rosto, filigranas, telas de uma memória
difícil. O que une a fidelidade à fidelidade da
paixão é o limite em que se adormece. Mas não
se desperta dessa luz. Se me prendes, eu fujo no
mar, corro nas falésias, nos perigos da morte e do
entardecer. Se eu te prendo, morro repentinamente
sem dizer toda a verdade sobre o que o mar oculta.
Francisco José Viegas, Desfocados Pelo Vento, Quasi Edições, 2004
como se fossem pássaros perdidos.
Não se vêem as asas nem os vultos
inumeráveis no trajecto, só
as formas que desenham, geométricas
aparições mentais, e a ilusão
das aves que, perdidas, se parecem
a conjuntos de ideias. Da miragem
em tensas conversões, o corpo emana
abstracta figura, erecta e fria
Luís Adriano Carlos, Invenção do Problema, Moraes Editores,1986
Quando chegou a Nova Iorque, Madonna avisou logo que vinha para "conquistar o mundo". Madonna nasceu com a própria cultura popular que a consagrou, afinal, ainda hoje.A história da música popular é também a história das suas relações, muitas vezes tensas, quase sempre ambíguas e perversas, com as instituições, comportamentos e valores dominantes. E, nesse aspecto, a criadora de Like a Virgin tem muito para contar.
Revista do JN
sexta-feira, 15 de agosto de 2008
Foi a vez de Há Lodo no Cais
em 1954. O genial Marlon
que também é Brando, amante
de pombos, martiriza-se até
à denuncia da tirania. Faz-se
pessoa gerando a solidariedade.
O herói da dureza,
da semidelinquência, é um homem
ferido, de algum modo traído
pela teia da vida.
Na juventude a cabeça sumptuosa
é escultura carnal. Na maturidade
de O Último Tango, o sedutor
de humor variável mata
a beleza num gesto borderline.
Isabel de Sá, Repetir o Poema, edições quasi, 2005


quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Como escreveu FREUD, em MAL-ESTAR NA CULTURA, « o homem não é um ser doce, com necessidade de amor, que na melhor das hipóteses apenas se defenderia se estivesse em risco de ser atacado, mas, pelo contrário, o homem tem precisamente entre as suas disposições pulsionais uma muito intensa inclinação para a agressão. E, por conseguinte, o próximo não é para ele apenas uma ajuda e um objecto sexual possível, mas também, uma tentação, a de satisfazer nele o seu desejo de agressão, a de explorar sem limites a sua força de trabalho, a de o utilizar sexualmente sem o seu consentimento, a de se apropriar do que ele possui, a de o humilhar, de lhe provocar dores, de o martirizar e de o matar».
quarta-feira, 13 de agosto de 2008
O CAFÉ E A LITERATURA
«O grão de café, o perfume de ambrósia!», exclamava no século XVII o poeta turco Belighi: desde o seu aparecimento, o café não mais deixou de ser cantado por escritores e poetas. Pelo seu sabor delicioso, mas também pelas propriedades estimulantes, propícias à criação, e pelas oportunidades de convívio e de debate que proporcionava nos estabelecimentos onde era servido. Em França, enquanto a Colette de La Maison de Claudine (1922) era a recordação dos pequenos-almoços rescendentes em família, os escritores preferiram evocar a atmosfera dos cafés, fosse ela corriqueira ou exótica.
Gérard de Nerval (Le Voyage en Orient, 1848-1851), Pierre Loti (Aziyadé, 1879), Hippolyte Taine (Voyage en Italie, 1914) e tantos outros enriqueceram os seus textos com belas descrições das suas viagens em que o café surge como uma das instituições fundamentais da arte de viver dos paises visitados. Em sentido inverso, escritores como Hemingway ou Henry Miller, que evocaram o extraordinário cadinho de artistas que foram certos cafés da capital francesa entre as duas guerras. Sobre os prazeres e virtudes da bebida, Balzac terá sido o mais prolífico, tanto no seu Traité des excitants modernes (1839) como em Eugénie Grandet (1833) ou Ursule Mirouet (1841). Mas as mais belas páginas alguma vez escritas sobre o café pertencem, sem dúvida, ao escritor palestiniano Mahmud Darwich, que, no início de Une mémoire pour l'oubli (1994), descreve - numa magnífica provocação à violência e à morte - o acto voluptuoso e tranquilo de preparar o seu café numa Beirute bombardeada.
Alain Stella, escritor
BREVE HISTÓRIA DO CAFÉ
Nem sempre se tem a percepção de a que ponto o café, aparecido no século XV, mudou o mundo. Se é bebido por milhões, depois de ter conquistado o planeta, se se tornou a segunda bebida consumida no mundo, depois da água ( o que é contestado pelos amantes do chá), é porque nos trouxe, e continua a trazer, extraordinários benefícios para o corpo e para o espírito e, acima de tudo, um admirável factor de convivialidade - do Japão aos Estados Unidos, passando pelo Médio Oriente e pela Europa, o café aquece a alma e aproxima as pessoas. Porque exige uma preparação, porque depois de servido é preciso esperar alguns momentos antes de ser bebido. O café não é, decididamente, uma dessas bebidas em lata que se consomem sm mesmo pensar no que se está a beber. Exige um pouco de atenção e tempo. Um tempo que, por todo o mundo, as pessoas gostam de partilhar. Em família, ao pequeno-almoço; nas tendas dos beduínos ou nos corredores dos escritórios; e, naturalmente nos cafés, o universo que lhe é próprio e onde acontecem os encontros, as trocas de ideias. O café é um mensageiro.
Alain Stella, escritor.
segunda-feira, 11 de agosto de 2008
JOAQUIM MANUEL MAGALHÃES
Quando o visitante, o inesperado rapaz
vindo duma noite distante, partir, partiu,
quem vai lembrar o pranto, o rasgão
da morte, o sangue correndo?
Eco de passos que não houve,
acordou a clara água das raízes
nuns dedos perdidos.
Ele, o despedido, aquele em quem ficamos
cantando os largos claros da noite,
os prédios encobertos de chuva imaginária.
Quem era, quem é? Foi um imprevisto
anúncio de pugna e foz lacustre,
de cardo matinal onde o amor corria.
O terror , rapaz rápido,
da tua sedução nessa despedida.
O visitante sai, saiu, virá um dia
preso do tempo que se rejeitou,
a voz fria, o encanto do desperdício.
a água foge nos seus dedos, falamos-lhe.
Pomos a boca sobre a fria superfície
da sua pele onde bate o sol,
um canteiro incendiado de brandura.
Uma coragem cresce debruçada
para os seus olhos salinos contra nós.
Tem um sorriso, uma camisa aberta,
o peito um arco de respiração.
Lentamente afasta-se. Já não segura
o nosso despeito nem o nosso acordo.
Para esquecê-lo, nenhuma noite bastará.
A fonte secou, o caminho que seguimos foi devorado.
Na manhã os pássaros começam a sangrar.
Consequência do Lugar, Relógio d'água, 2001
Aqui fica a resposta a uma pergunta feita ao poeta numa entrevista, sobre a reunião de oito livros no volume CONSEQUÊNCIA DO LUGAR.
sábado, 9 de agosto de 2008
POESIA E VERSO LIVRE: ABOLIR AS VELHAS FORMAS
Em Baudelaire (1821-1867, que define o poder encantatório das palavras e se dedica a decifrar, através das correspondências, o mistério da criação, encontram Verlaine, Rimbaud e Mallarmé um precursor. Este último é o autor de uma definição que passa a ser o credo de muitos poetas: " A Poesia é a expressão, pela linguagem humana reconduzida ao seu ritmo essencial, do sentido misterioso dos aspectos da existência : por isso ela confere autenticidade à nossa estada e constitui a única tarefa espiritual."
A fórmula do verso livre dispensa a contagem das sílabas. O seu número e repartição são livremente fixados em função da respiração ou da busca de musicalidade. A questão da sua paternidade é levantada um ano depois da afirmação de um simbolismo na literatura (ver manifesto). Gustave kahn (1859-1936) assina, nos seus Palais nomades (1887), uma primeira certidão de reconhecimento, certidão que confirma dez anos depois, no "Prefácio" aos seus Premiers poèmes. Mas o director da revista la vogue não podia ignorar os poemas de Rimbaud, nomeadamente "Marinha" e "Movimento", que este enviara para publicação em 1886, nem os Derniers vers de Jules Laforgue (1860-1887) e as traduções que este fez de As Folhas de Erva, do poeta americano Walt Whitman (1819-1892). Paul Valéry (1871-1945), muitos anos depois da "deliciosa emancipação" saudada pelo seu mestre Mallarmé, irá restabelecer, com La Jeune Parque (1917), uma ordem prosódica rigorosa.
Séverine Jouve, jornalista e escritora
EROS
"É preciso reinventar o amor" (Rimbaud)
"O amor nunca se misturou tanto com acrimónia, fel, desavenças e remorsos como na época do simbolismo", sublinha Ernest Raynaud (1864-1936) em La Mélée symboliste. Entre a pura fruição sensual, pela qual Mallarmé pretende encontrar "o pesado sono sem sonhos" e esse furor novo de castidade que leva os poetas a só quererem amar em imaginação, manifesta-se a partilha indecisa da alma e do corpo. Querendo responder a Rimbaud ("É preciso reinventar o amor"), o simbolismo irá constantemente espiritualizar a carne ou materializar o espírito. A androginia é uma das formas deste erotismo perverso.
"Efebo de castidade assassina", a princesa d'Este de Le Vice suprême, de Péladan (1884), é uma das heroínas ambíguas em cujas mãos o homem se transforma em instrumento submisso. O austríaco Sacher-Masoch (1836-1895), autor de A Vénus das Peles (1870), ilustra bem esta nova forma de amor a que o alienista Krafft-Ebbing viria a chamar"masoquismo". (Psychopathia sexualis, 1886). A luxúria e a morte sobrepõem-se. Ambivalência de Eros e Tanatos, sucessivamente encarnada por Salomé, Judite (ver Klimt) ou Cleópatra, tema recorrente na pintura (Munch).
Séverine Jouve, jornalista e escritora
DECADÊNCIA
"Os grandes bárbaros brancos" (Verlaine)
"O poeta de As Flores do Mal gostava daquilo a que impropriamente se chama o estilo da decadência, e que outra coisa não é senão a arte que atinge aquele ponto de maturidade extrema que as civilizações que envelhecem determinam nos seus sóis oblíquos." No seu prefácio (1868) a As Flores do Mal, Téophile Gautier (1811-1872) estabelece a relação entre decadência histórica e zénite poético. No mesmo sentido, "Langor" de Verlaine (1884) celebra o apogeu de um estilo requintado.
Quer se considere este fenómeno literário como uma primeira manifestação do simbolismo (o aparecimento da revista Le Decadent de Anatole Baju é, aliás, contemporâneo do manifesto de Móreas), quer se tente distingui-lo dele, a decadência define-se por um estado de espírito impregnado de pessimismo e por uma escrita mais rebuscada , em que abundam as palavras raras, os neologismos, e que recorre a perversas metáforas e a uma sintaxe complicada.
Este estilo impõe-se num romance, À rebours, em que Huysmans traça o retrato inesquecível do duque Jean Floressas des Esseintes, arquétipo do esteta decadente, dandy neurótico que prefere a arte à vida. A pintura participa activamente na criação destas atmosferas insalubres. Cronista dos vícios e da corrupção da sua época, Jean Lorrain (1855-1906), nas suas próprias palavras eterómano e "enfilantropo", escreve Monsieur de Phocas (1900), romance de clima deletério, percorrido por descrições de obras de Moreau, Ensor ou Khnopff.
Séverine Jouve, jornalista e escritora.
DANDISMO E ELITISMO
"Só nos temos a nós mesmos"Khnopff (pintor simbolista)
Outrora celebrado por Barbey d'Aurevilly e Baudelaire, o dandismo é uma atitude muito apreciada nos meios artísticos dos finais do século XIX. Copiando os antepassados românticos, jovens literatos como Rodenbach e Moréas afirmam a sua diferença pelo culto cuidado da aparência e da conduta. Este narcisismo, ilustrado por Oscar Wilde (Retrato de Dorian Gray) e pela divisa de Khnopff (só nos temos a nós mesmos), é reforçado pelo sentimento de pertencer a uma elite. Culto da distinção, encarnado pelo conde Robert de Montesquiou (1855-1921), modelo da personagem de Des Esseintes (ver Huysmans), o dandismo fim-de-século é também a afirmação de uma inadaptação ao mundo que conduz, na sua expressão literária, a trágica reclusão voluntária, um culto do raro e do artificial que corteja a monstruosidade e o sadismo. A época vê nascer as novas figuras do snob e do esteta. Preocupações mais concretas estão por vezes subjacentes ao elitismo: perante a "arte oclocrática" propagada em França por dois pletóricos salões anuais, Péladan opta por acolher as obras de uma "artisteia" rigorosamente escolhida. Em contraste com o desejo de publicidade, espíritos exigentes fazem gala da sua indiferença para com a multidão. Ao defender, desde 1862, uma poesia deliberadamente hermética à vulgaridade ("Heresias artísticas. A Arte para todos"). Mallarmé faz desta o último refúgio das almas nobres iniciadas e o santuário da religião da arte.
Laurent Houssais, historiador de arte.
sexta-feira, 8 de agosto de 2008
Longamente A Madrugada
Aqui me levantei. Aqui me deito.
Alguém anda em círculos,
o meu nome impõe-se.
Longamente a madrugada.
Desconhecidos um do outro
chegamos ao mesmo lugar.
De mim terias o corpo,
os lugares e o desejo.
Lentamente a madrugada e a luz dos teus olhos.
Um Corpo Transparente
Se me dissessem da existência da invisibilidade
eu ficaria interessado.
Nada mais prático do que um corpo transparente.
A minha voz irrompe e sinto que nada sei sobre mim.
Aqueço-me na respiração do outro.

Desenho e Poema de
valter hugo mãe
poema das coisas aladas no coração da minha irmã flor
as coisas aladas ensinam o chão. explicam-lhe quanto há entre terra e céu, o caminho livre do voo, a vista elevada de deus. eu vejo anjos e os anjos são das coisas aladas os sonhos mais completos. erguem-se braçados de asas a educar o vento, percursos de sopro que se abrem nas dimensões, e luzem nas nossas cabeças como homens enfim pássaros. como se as árvores pudessem ser casas nossas e nada nos acordasse na força do frio ou da chuva. como se nos cumprimentássemos em pleno ar, seres tão leves atarefados com mais nada. seríamos só pulmões cheios, máquinas de pairar, alegres imprecisões ao alto.
livro de maldições, objecto cardíaco, 2006








































