sábado, 1 de agosto de 2009
Mais uma estrela que se apagou
Merce Cunningham 1919 - 2009
Era considerado o maior coreógrafo vivo. Até segunda-feira passada, morreu em Nova Iorque, aos 90 anos. Sempre ligado às artes plásticas e musicalidades diversas. Colaborou com Rauschenberg, Jaspers Johns, Radiohead ou Sigur Rós. Esteve sempre associado a John Cage, com o qual viveu uma parceria pessoal e artística, de 1994 até 1992 - data da morte do compositor. Tive o privilégio de assistir ao vivo, por duas vezes e no Porto, a bailados deste coreógrafo, com música de Jonh Cage e cenários de Andy Warhol. O último espectáculo foi em 2001 - Porto Capital da Cultura. Quando Cunningham apareceu no palco, com 82 anos, elegante, como uma escultura de Giacometti, o corpo do ballet inscrito em cada gesto, a plateia ovacionou, de pé, durante vários minutos. Uma emoção colectiva ÚNICA.
sexta-feira, 31 de julho de 2009
Paulo da Costa Domingos
quarta-feira, 29 de julho de 2009
Luís Miguel Nava
Tem furos na consciência, este rapaz. Tem a memória
em cacos. Que fará da minha infância quando entrar no
rasgão com que deu a todo o comprimento dela? Que sabe
ele do labirinto onde uma letra se extravia ou do horizonte
em que pressinto um sublinhado? Ignoro o que ele fará,
bem como o que dirá ao ver num poema o céu em entre-
linhas.
A Inércia da Deserção, editora & etc, Lisboa, 1981
segunda-feira, 27 de julho de 2009
LUÍS MIGUEL NAVA
Às vezes procurava-me, trazia
no sangue a acentuação
do corpo, o que no fundo
dele é marítimo corria à superfície.
quinta-feira, 23 de julho de 2009
RUE DU MARCHÉ AUX HERBES
Desta vez foi o teu corpo
-não o sabias tão sensato -
quem tudo fez para impedir o poema,
versos a doer nos músculos.
A cidade adormece, num langor
de puta velha, depois de ter
anestesiado centenas de turistas
com luz inepta e música de encomenda.
Nós, de pé, apenas pedíamos sombra
e eu preferia não situar na Grand Place
uma discreta canção de Brel,
que teve a sorte de morrer
antes de ver a cidade reduzida
a estábulo dos príncipes da mediocridade;
esses que decidem o futuro que não há
e usam gravatas de seda enquanto nos exterminam.
A cidade adormece, cansada de ser puta,
enquanto nós, menos putas,
procuramos em vão esse luxo.
E há baratas, não propriamente
alaúdes, no cerco abrupto das janelas.
Manuel de Freitas, Intermezzi, Op.25, Editora Opera Omnia, Guimarães, 2009
terça-feira, 21 de julho de 2009
Ao cair da tarde
Penso sempre mais
E a luz que me invade
São as cores naturais
Cada figura
que passa por mim
nem me perturba
e eu fico assim
Longe me leva este silêncio
e o sentir que se altera
são as cores do sol
E eu fico encantada
e eu sinto-me a arder
quando o dia se apaga
fica tanto por ver
segunda-feira, 20 de julho de 2009
Postagem dedicada ao Camel & Coca Cola
e ao seu gosto pela Poesia, Arquitectura,
edições raras de Livros e Editoras portuguesas
http://camelecocacola.blogspot.com/
http://www.livropelacapa.blogspot.com/
A aurora de Nova Iorque tem
quatro colunas de lodo
e um furacão de negras pombas
que chapinham nas águas apodrecidas.
A aurora de Nova Iorque geme
nas escadas imensas
a procurar entre as pedras
nardos de angústia desenhada
A aurora chega e não há quem a receba na sua boca
pois ali não há manhã nem esperança possível.
Às vezes, em enxames furiosos, as moedas
perfuram e devoram abandonados meninos.
Os primeiros a sair compreendem com os ossos
que não haverá paraíso nem amores desfolhados;
sabem que vão para o lodo de números e leis,
para os jogos sem arte, para suores sem fruto.
A luz é sepultada por correntes e ruídos
num repto impudico de ciência sem raízes.
Nos bairros há pessoas que vacilam insones,
como recém-saídas de um naufrágio de sangue.
Lorca - Nova Iorque num Poeta, Hiena Editora, 1995, Lisboa
domingo, 19 de julho de 2009
ARNO GRUEN - A TRAIÇÃO DO EU - O Medo da Autonomia no Homem e na Mulher
sábado, 18 de julho de 2009
O deserto tem este travo
de morte distante, faz-me
anticorpo para o meu corpo,
putrefacto e lento,
desleal ao mundo.
Um dia acordei e era isto.
Acordei tarde e fiquei preso
ao silêncio de ter perdido o dia.
Esperei pela noite
para beber um pouco,
fumar uns cigarros no bar do costume
e passear sózinho
pela alameda às seis da manhã
com a tua casa atrás de mim,
como uma sombra
a sublimar o medo.
quarta-feira, 15 de julho de 2009
PAULO DA COSTA DOMINGOS
NARRATIVA
NEM ME LEMBRO de ter nascido. Estou aqui desde sempre. Faça-se de conta que nada disto aconteceu. Há quem julgue o imaginário menos cruel que a vida quotidiana. Talvez menos que a memória; mesmo a memória sumária. Abro uma gaveta, uma madeixa de cabelo em caracol, presa de um laço em seda, ilumina-a o Sol. Pedaço de mim. A cédula militar - pedaço de tempo: perdido. Esfacelado, da correria na mata empós de javalis na jovialidade tôla de fardas recrutas obedientes. Dementes horas, absurdos dias, meses de demência febril no Verão Quente. E, súbito: o cachorrito ao colo. A nesga do sol na gaveta confina toda a década de 50. E as de 60 e 70. Décadas de inúteis, e sem prodígio: funcionários de deus-pátria-família. Até à noite dos filhos, que se lhes seguiu - néonnada, mas noite; e ainda não parou. Parece aqueles verões de estâncias de férias para trabalhadores, infindáveis até nos namoros sobre a caruma. Dilacerantes às primeiras chuvas, ao gelo nas hastes desfolhadas, no sagrado coração. 1953 não recordo. Um mês depois de eu chegar, partia António Maria Lisboa. Nesse preciso ano escreveu alguém a ácido nas paredes, no centro nevrálgico do capitalismo, «ne travaillez jamais». Era na época da tortura fascista dissimulada, rosto debaixo do chapéu, olhar encoberto pela aba (hoje, é esta coisa amorfa sem rosto, estes voos sem escala, se tanto cinco minutos, do médico de família). (...)
O universo de um miúdo lisboeta pouco mais se estende além da medida dos seus braços e pernas. O que dá para muito recreio em volta, e proporcionais ralações familiares. Assim era por esses dias; as próteses tecnológicas teorizadas pelo MacLuhan vinham distantes: hoje, está a circum-navegação acessível a qualquer um, qualquer condição de classe, e, faça-se o que se fizer a impedi-lo, em qualquer idade. Indianas, latinas, asiáticas - osso que será virtual -, mas sobretudo delirantes imagens, falsa carne, vieram substituir os velhos índios e soldaditos de plástico. As minúsculas tendas são agora serralhos, e a regra do jogo define-se pela intencional omissão de todas as regras. Ninguém saberá ao certo quanto lhe é permitido ou o quê, excepto nalguns frágeis ditos arcaicos, tabus, ignorando-se se da ordem supersticiosa da religião, se da da higiene ou saúde públicas. (...)
Fragmento do livro NARRATIVA, editado pela FRENESI, Junho 2009, Lisboa










































